A Leitora das Travessias

A Leitora das Travessias

Existem pessoas que dedicam a vida aos livros. Outras permitem que os livros reorganizem a própria vida. A professora Ângela Bezerra de Castro pertence a esta segunda categoria. Sua trajetória não se limita ao exercício do magistério ou ao acúmulo de títulos acadêmicos; desenha-se como um percurso de fidelidade à palavra escrita, entendida não apenas como patrimônio cultural, mas como experiência de formação humana.

Natural de Bananeiras, no brejo paraibano, percorreu diferentes caminhos do conhecimento até consolidar uma carreira marcada pela docência, pela pesquisa e pela crítica literária. Formou gerações de leitores, publicou estudos, participou ativamente da vida intelectual paraibana e assumiu lugar de destaque na Academia Paraibana de Letras. Cada uma dessas etapas representa mais que um marco biográfico: revela uma disposição permanente para fazer da literatura um espaço de diálogo entre tradição e contemporaneidade.

Entretanto, nenhuma biografia intelectual se explica apenas pelo currículo. O que distingue um estudioso é a forma como habita seus autores. No caso de Ângela, essa afinidade encontra expressão singular na obra de João Guimarães Rosa.

Há leitores que enfrentam Rosa como quem busca vencer uma dificuldade. Ela prefere outro movimento. Aproxima-se do escritor mineiro com a serenidade de quem sabe que certos livros não se deixam dominar. Pedem convivência. Exigem tempo. A cada leitura, novos sentidos emergem, como veredas que permaneciam invisíveis até que o olhar amadurecesse o suficiente para reconhecê-las.

Seu trabalho crítico evidencia precisamente essa dimensão. Mais do que explicar a arquitetura verbal rosiana, convida o leitor a perceber como a linguagem pode ampliar a experiência do mundo. Em suas interpretações, o sertão deixa de ser apenas um cenário geográfico e passa a representar um território ético, existencial e imaginativo, onde as perguntas importam mais do que as respostas.

Talvez por isso suas conferências e aulas produzam um efeito raro. Não encerram o assunto; inauguram novas curiosidades. Ao final de uma exposição, permanece menos a sensação de ter aprendido uma conclusão do que o desejo de voltar ao texto com outros olhos. É uma pedagogia fundada na descoberta, não na demonstração.

Essa postura revela uma compreensão profunda do papel da crítica literária. Interpretar não significa reduzir uma obra a uma explicação definitiva, mas abrir possibilidades de leitura. O crítico não substitui o texto; oferece instrumentos para que ele continue falando a diferentes gerações.

Em tempos marcados pela rapidez das opiniões e pelo consumo apressado das informações, a atuação de Ângela Bezerra de Castro reafirma um valor quase silencioso: o da leitura paciente. Ler devagar é reconhecer que certas ideias amadurecem apenas quando encontram tempo para respirar. Os clássicos permanecem vivos justamente porque recusam a pressa.

É nessa fidelidade ao tempo da literatura que sua contribuição se torna mais evidente. Sua produção intelectual, seu trabalho docente e sua presença nas instituições culturais convergem para um mesmo propósito: manter aberta a conversa entre os livros e seus leitores.

Ao longo dessa caminhada, Guimarães Rosa não aparece apenas como objeto de estudo, mas como interlocutor permanente. Entre ambos estabelece-se um diálogo construído ao longo de décadas, alimentado por sucessivas releituras e pela convicção de que as grandes obras nunca se esgotam. Permanecem oferecendo novas paisagens a quem aceita percorrê-las.

Talvez seja essa a verdadeira vocação de uma grande professora: não conduzir o leitor até uma resposta definitiva, mas acompanhá-lo nas travessias que fazem da literatura uma forma mais profunda de compreender a vida.

Palmarí H. de Lucena