A ladeira, a Bahia e a inteligência artificial

A ladeira, a Bahia e a inteligência artificial

Outro dia, em São Paulo, alguém descrevia uma rua e disse que a ladeira era muito íngreme. O interlocutor fez uma pausa e perguntou o que aquilo significava. Não era discordância. Ele simplesmente não conhecia a palavra. Vieram então outras tentativas: uma subida muito forte, uma rua bastante inclinada, dessas em que o esforço aparece nas pernas antes de a pessoa chegar à metade. Ainda assim, a expressão parecia não se encaixar. Até que veio a explicação, quase como uma nota de rodapé para a conversa: É que eu não sei o que é isso. Acabei de chegar da Bahia. Os dois riram, e o assunto continuou.

A graça da história não está em alguém não conhecer uma palavra. Está no fato de que uma palavra tão comum para uma pessoa pode ser completamente dispensável para outra. Não havia ali um erro a ser corrigido, mas duas experiências que ainda não tinham encontrado uma tradução. Bastou que uma delas explicasse o que queria dizer para que a conversa prosseguisse.

É assim que uma língua funciona. E, de certa maneira, é assim que um país funciona também. Pessoas mudam de cidade, de estado, de profissão e de vida. Levam consigo vocabulário, hábitos, referências e maneiras de interpretar o mundo. Encontram outras pessoas que aprenderam as mesmas coisas de outra maneira. Na maior parte das vezes, o encontro produz alguma forma de tradução. Uma palavra é explicada, uma expressão é incorporada, um costume é compreendido. Aos poucos, aquilo que parecia estranho deixa de ser.

O Brasil é particularmente feito desses encontros. Durante muito tempo, a imagem mais conhecida foi a do nordestino que deixava sua terra para tentar a vida em outras regiões. Hoje, os movimentos são mais variados. Há também quem deixe o Sul ou o Norte para viver no Nordeste, quem troque uma capital pelo interior, quem mude de região por trabalho, aposentadoria ou simplesmente pela vontade de começar outra vida. As direções mudam, mas uma coisa permanece: quem muda de lugar leva consigo uma experiência que não cabe inteiramente no novo endereço.

Foi pensando nisso que a conversa sobre a ladeira voltou à memória quando comecei a observar a maneira como a inteligência artificial está entrando no trabalho. A tecnologia chega acompanhada de uma linguagem própria. De repente, palavras como prompt, automação, modelo de linguagem, agente e copiloto aparecem em reuniões, cursos e apresentações como se fossem parte do vocabulário cotidiano de todo mundo. Não são. Para uma parcela dos trabalhadores, esses termos são apenas mais um conjunto de palavras técnicas.

E a frase é fácil, basta conversar com a ferramenta pode esconder uma dificuldade considerável. Conversar com uma inteligência artificial exige saber formular uma pergunta, fornecer contexto, avaliar a resposta, identificar erros, proteger informações e decidir quando a máquina não deve ser seguida. Não é apenas uma questão de aprender a apertar os botões certos. É uma forma nova de trabalhar com linguagem e informação.

Essa mudança chega a um país em que a própria educação ainda distribui oportunidades de maneira desigual. Há estudantes que chegam à vida profissional com amplo repertório de leitura, familiaridade digital e acesso a equipamentos. Há outros que passaram por escolas com menos recursos, tiveram pouco contato com tecnologia e carregam dificuldades de formação básica que não deveriam ser ignoradas quando se fala em futuro do trabalho.

Isso importa porque a inteligência artificial não elimina as diferenças de formação; em determinadas situações, pode ampliá-las. Quem compreende melhor um texto tende a formular perguntas melhores. Quem domina uma profissão consegue avaliar com mais facilidade se a resposta da máquina faz sentido. Quem possui repertório pode perceber uma inconsistência que passaria despercebida para outra pessoa. A tecnologia pode estar disponível para muitos e, ainda assim, ser aproveitada de maneiras muito diferentes.

Mas esse não é o único caminho possível. A mesma ferramenta que pode aumentar diferenças também pode ajudar a reduzi-las. Pode explicar um assunto de outra maneira, auxiliar alguém a organizar uma ideia, apoiar a escrita, adaptar um exercício, traduzir um texto ou servir como apoio para quem está tentando aprender. Seu potencial educacional é considerável. O problema é que acesso à ferramenta não equivale a capacidade de aproveitá-la.

É por isso que a discussão sobre inteligência artificial precisa voltar à escola. Não apenas à escola que prepara crianças e adolescentes para o futuro, mas também à educação de adultos, ao ensino profissional, à formação continuada e ao treinamento dentro das empresas. O trabalhador que não teve oportunidade de aprender determinada tecnologia não deveria ser tratado como alguém que ficou para trás por escolha própria. Muitas vezes, ele simplesmente nunca recebeu a explicação.

Capacitar para a inteligência artificial também não significa transformar toda a população em programadores ou especialistas em tecnologia. O contador já conhece contabilidade. O vendedor conhece seus clientes. A professora conhece sua sala de aula. O agricultor conhece seu trabalho. O funcionário público conhece os problemas que chegam diariamente ao balcão. A questão é mostrar como uma nova ferramenta pode ampliar esses conhecimentos, sem exigir que a pessoa abandone aquilo que já sabe.

Por isso, o país poderia transformar a capacitação em IA em uma política pública permanente, e não em uma coleção de cursos ocasionais. Um programa nacional poderia oferecer módulos gratuitos e progressivos, começando pela alfabetização digital e chegando ao uso de IA aplicado a diferentes profissões, por meio de escolas públicas, Institutos Federais, universidades, Sistema S e centros de formação profissional. O trabalhador poderia participar presencialmente ou pelo celular, receber certificação por etapas e aprender com problemas reais de seu trabalho.

A política precisaria chegar ao trabalhador onde ele está: no emprego. Em vez de oferecer apenas cursos genéricos sobre inteligência artificial, empresas e poder público poderiam garantir um período regular, dentro da jornada e sem perda de salário, para que o trabalhador aprenda a utilizar as ferramentas relacionadas à sua própria função. O treinamento começaria por situações concretas: o vendedor que precisa preparar uma proposta, a auxiliar administrativa que organiza documentos, o profissional de atendimento que responde às mesmas perguntas todos os dias, o técnico que produz relatórios ou o pequeno empresário que precisa divulgar seu negócio.

A formação poderia ser organizada em módulos curtos, combinando aulas presenciais ou pelo celular com exercícios realizados no próprio trabalho. Cada trabalhador aprenderia a utilizar a ferramenta, verificar suas respostas, proteger dados e reconhecer situações em que a decisão humana é indispensável. Ao final de cada módulo, teria de demonstrar o que conseguiu fazer, e não apenas marcar presença em uma sala virtual.

Nas empresas, profissionais de referência poderiam acompanhar os experimentos e ajudar as equipes a compartilhar boas práticas. Em organizações maiores, isso poderia fazer parte de uma estrutura interna de formação em IA. Nas pequenas, programas compartilhados por instituições de ensino profissional, universidades e entidades empresariais poderiam reduzir o custo. O essencial seria reservar tempo de aprendizagem dentro da jornada, trabalhar com problemas reais e acompanhar os resultados.

O sucesso também precisaria ser medido de maneira menos superficial. O número de certificados diz pouco. Mais importante seria saber quantos trabalhadores passaram a utilizar as ferramentas, quais tarefas foram melhoradas, quanto tempo foi economizado, se a qualidade aumentou e quais erros ou riscos apareceram. Capacitação deixaria de ser um evento e passaria a fazer parte da própria transformação do trabalho.

Nas escolas, a lógica deveria ser ainda mais cuidadosa. Não basta entregar uma ferramenta aos alunos. É preciso fortalecer aquilo que permite utilizá-la bem: leitura, escrita, matemática, pesquisa, argumentação e pensamento crítico. Quanto melhor for a formação básica, maior será a capacidade de uma pessoa utilizar a inteligência artificial sem simplesmente aceitar a primeira resposta que aparece na tela.

Há, portanto, uma responsabilidade compartilhada. O poder público precisa ampliar a formação; as empresas precisam reservar tempo e recursos para a aprendizagem; as instituições de ensino precisam aproximar seus currículos das novas tecnologias; e o trabalhador precisa encontrar espaço para experimentar, errar e aprender. Nenhuma dessas partes consegue resolver sozinha uma transformação dessa dimensão.

O objetivo tampouco deveria ser formar uma elite de especialistas. Seria mais útil garantir que milhões de brasileiros soubessem utilizar a inteligência artificial com autonomia suficiente para melhorar seu trabalho, reconhecer seus limites e fazer perguntas melhores. O conhecimento técnico pode variar de profissão para profissão. A capacidade de aprender continuará sendo comum a todas elas.

No fundo, a questão não é se a máquina será inteligente o suficiente. É se as pessoas terão condições de trabalhar com ela de maneira inteligente.

Aquela conversa sobre a ladeira ajuda a lembrar disso. O homem que havia acabado de chegar da Bahia não precisava conhecer a palavra íngreme para compreender a rua. Precisava apenas de uma explicação. E quem usou a palavra precisou perceber que aquilo que lhe parecia óbvio não era necessariamente óbvio para o outro.

Talvez a transição para a inteligência artificial exija exatamente essa disposição: menos a ideia de que todos deveriam saber e mais a disposição de explicar; menos a cobrança pela adaptação imediata e mais investimento em aprendizagem; menos fascínio pela ferramenta em si e mais atenção às pessoas que terão de utilizá-la.

A inteligência artificial já chegou ao trabalho brasileiro. O que ainda está em construção é a capacidade de fazer com que essa chegada seja uma oportunidade de aprendizagem, e não apenas uma nova fronteira entre os que sabem e os que ficaram de fora.

Naquela conversa em São Paulo, ninguém precisou conhecer previamente a palavra íngreme para seguir adiante. Alguém parou, explicou a subida, e a conversa continuou. Talvez seja uma boa maneira de pensar o futuro do trabalho: não uma máquina esperando no alto da ladeira, mas uma sociedade disposta a explicar o caminho.

A ladeira pode ser íngreme. O que não precisa ser é a distância entre quem já sabe e quem ainda está aprendendo.

Palmarí H. de Lucena