A intimidação de Trump contra o Brasil está saindo pela culatra.

A intimidação de Trump contra o Brasil está saindo pela culatra.

Cinquenta anos atrás, os Estados Unidos iniciaram uma inflexão histórica na forma de se relacionar com a América Latina. Sob a liderança de Jimmy Carter, a Casa Branca trocou o pragmatismo conivente com ditaduras pelo compromisso com os direitos humanos — postura que ajudou a criar espaço para a redemocratização brasileira. Meio século depois, a história se repete às avessas. Um novo presidente americano, agora indiferente à democracia e às instituições, usa o Brasil como instrumento em sua cruzada pessoal. O nome dele é Donald Trump.

Ao anunciar, neste mês, uma tarifa de 50% sobre as importações brasileiras, Trump escancarou a natureza política de sua retaliação. Não há desequilíbrio comercial a corrigir — os Estados Unidos têm superávit com o Brasil. Não há proteção industrial plausível. O alvo é outro: interferir nos processos judiciais em curso contra Jair Bolsonaro e punir o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, por fazer cumprir a Constituição e coibir a desinformação em redes sociais.

O pano de fundo é ainda mais grave: a articulação dessa pressão partiu de dentro do Brasil. Ou melhor, de brasileiros que se refugiaram nos Estados Unidos, como Eduardo Bolsonaro, que gravou vídeos nos jardins da Casa Branca em tom de campanha internacional contra as instituições nacionais. Movimentos assim, quando partem de cidadãos que procuram governos estrangeiros para punir o próprio país, ultrapassam o campo da crítica política e ingressam no território do antipatriotismo.

Essa tentativa de submissão do Brasil à lógica de uma seita estrangeira teve efeito contrário ao pretendido. Lula respondeu com firmeza, lembrando a Trump que foi eleito para governar os Estados Unidos, não para agir como imperador do mundo. Apareceu em eventos com um boné azul, paródia direta do “MAGA” trumpista, onde se lê: “O Brasil pertence aos brasileiros”. O gesto, simbólico, ressoou com um país cansado de ver sua soberania negociada em nome de alianças ideológicas.

Do outro lado, o ministro Moraes também não se curvou. No mesmo dia em que teve seu visto revogado pela administração Trump, determinou novas medidas contra Bolsonaro, acusando-o de conspirar com o filho para desestabilizar a democracia. O ex-presidente está proibido de contatos com governos estrangeiros e obrigado a usar tornozeleira eletrônica — sinal claro de que a Justiça brasileira não se dobra a pressões externas.

Nos bastidores da diplomacia americana, há desconforto. Um alto funcionário do Departamento de Estado admitiu, sob anonimato, que não há gesto mais prejudicial à credibilidade dos EUA do que sancionar um juiz de Suprema Corte de outro país por discordâncias políticas. Ainda assim, Trump e seu entorno insistem na retórica da perseguição, ecoada por figuras como Marco Rubio, que acusou Moraes de criar um “complexo de censura” que ultrapassaria as fronteiras do Brasil.

No entanto, ao mirar Moraes e o sistema de justiça brasileiro, Trump acabou por oferecer a Lula um presente político inesperado. A crise impulsionou sua popularidade, ampliou sua imagem de líder nacional e colocou seus adversários diante de um dilema ético: seguir fiéis a Bolsonaro ou defender os interesses econômicos e institucionais do país. O editorial do Estado de São Paulo foi categórico: é preciso escolher entre o Brasil e Bolsonaro — não há meio-termo.

A resposta institucional brasileira tem sido clara. Um diplomata de alto escalão, também sob anonimato, resumiu o impasse: “Bolsonaro e seus aliados colheram o que plantaram — ameaças severas à economia nacional e ao tecido democrático. E o que era para ser uma jogada de força, acabou sendo um presente antecipado para o presidente Lula”.

Por fim, Lula fez um paralelo direto entre os atos golpistas de 8 de janeiro no Brasil e o ataque ao Capitólio americano em 6 de janeiro de 2021. Para ele, se Trump fosse brasileiro, já estaria sendo julgado e, talvez, preso por violar a Constituição. A frase reverberou como um lembrete de que a democracia, embora imperfeita, deve se proteger dos que tentam deformá-la de dentro para fora.

É preocupante observar, nesse cenário, a atuação de brasileiros que, em vez de defenderem o país em fóruns internacionais, espalham mentiras sobre as sanções, omitem seus motivos reais ou celebram seus efeitos como se fossem inevitáveis. Atitudes assim beiram a traição cívica: colocam interesses pessoais ou ideológicos acima da integridade nacional, estimulam o descrédito nas instituições e fragilizam a posição do Brasil no cenário internacional.

A soberania não se vende. Não se entrega. E tampouco se terceiriza a líderes estrangeiros. Que esse episódio sirva de alerta: a política externa não pode ser sequestrada por cruzadas pessoais, nem o patriotismo confundido com idolatria. O Brasil tem dono — e não é Trump, nem seus emissários tropicais. É o povo brasileiro.