A Indústria da Certeza

A Indústria da Certeza

Há uma espécie curiosa de mediocridade que não se contenta em ser medíocre: ela precisa estar certa. Não basta escrever mal; é necessário escrever mal em nome de alguma causa. Não basta escolher um lado; é preciso transformar a escolha em certificado de virtude. E assim a crônica — esse gênero que já foi uma pequena arte de observar o mundo sem a obrigação de salvá-lo — acaba convocada para funções mais prosaicas: munição, trincheira, propaganda.

O fenômeno não é exatamente novo. A política sempre teve seus escribas, seus panfletários e seus poetas de ocasião. O que mudou foi a escala da operação e a confiança com que se apresenta o produto. Um artigo pode começar com uma observação razoável e terminar, algumas linhas depois, tratando o adversário como a encarnação de todos os males conhecidos. Entre uma coisa e outra, desaparecem os fatos, as proporções e, sobretudo, a dúvida.

A dúvida, aliás, tornou-se um inconveniente.

Em certas manifestações contemporâneas do jornalismo opinativo, parecem existir apenas duas operações intelectuais disponíveis. A primeira é a negação: aquilo que contraria a narrativa escolhida não aconteceu, não importa, foi exagerado ou deve ser interpretado de outra maneira. A segunda é a hipérbole: aquilo que a favorece é histórico, monumental, definitivo, sem precedentes. O mundo real, com sua habitual falta de entusiasmo pelas nossas convicções, fica espremido entre as duas.

É uma forma peculiar de pobreza. Não necessariamente pobreza de palavras — alguns desses textos são longos, ornamentados e abundantemente adjetivados —, mas pobreza de conteúdo. Há artigos que parecem ter sido escritos por alguém que abriu o dicionário à procura de sinônimos para “absurdo”, “histórico”, “vergonhoso” e “inaceitável”. A cada parágrafo, aumenta o volume; raramente aumenta a informação.

O leitor termina sabendo perfeitamente quem deve admirar e quem deve desprezar, mas sem saber muito mais sobre o assunto que motivou o texto.

Talvez seja essa a característica mais reveladora da crônica transformada em arma partidária: ela não pretende propriamente convencer. Pretende confirmar. O leitor chega com uma opinião e recebe uma versão mais elegante — ou mais agressiva — daquilo que já pensava. A inteligência do texto passa a ser medida pela eficiência com que protege o leitor de qualquer ideia inconveniente.

Nesse ambiente, até a ironia perde sua função. A boa ironia deveria introduzir uma pequena perturbação: mostrar que uma certeza talvez seja menos sólida do que parecia. A ironia partidária, ao contrário, serve apenas para tornar o adversário ridículo. Não há descoberta, apenas escárnio. Não há surpresa, apenas aplauso antecipado.

A política é terreno fértil para esse tipo de escrita. Ela oferece personagens permanentes, vilões disponíveis, heróis renováveis e uma plateia predisposta a reconhecer os papéis. Basta escolher o lado, selecionar os fatos convenientes e organizá-los numa sequência familiar.

O método é eficiente porque não exige grande esforço intelectual.

Se um político do nosso campo comete um erro, encontramos a circunstância que o explica. Se o adversário comete o mesmo erro, encontramos nele a prova de um caráter. Se uma medida dá certo, ela confirma a genialidade de quem a adotou. Se fracassa, a culpa pertence ao contexto, à oposição, à imprensa, ao mercado, à herança recebida ou, com alguma criatividade, ao próprio sucesso que se pretendia alcançar.

A realidade raramente é tão generosa. Ela distribui erros e acertos com uma imparcialidade quase ofensiva.

Mas a indústria da certeza não trabalha com essa matéria-prima incômoda. Ela precisa de personagens simples e acontecimentos moralmente organizados. O mundo deve caber em duas colunas: nós e eles. A complexidade é suspeita porque pode introduzir uma pergunta; a pergunta pode produzir uma dúvida; e a dúvida pode comprometer a fidelidade à narrativa.

Daí a proliferação de textos que têm opinião, mas não têm argumento; têm indignação, mas não têm análise; têm estilo, mas não têm voz.

Há uma diferença importante entre escrever com convicção e escrever com certeza. A convicção pode nascer de uma reflexão profunda e continuar aberta à revisão. A certeza industrial, não. Ela chega pronta. Não investiga; sentencia. Não considera; classifica. Não conversa com o leitor; recruta-o.

É nesse ponto que o problema deixa de ser apenas político e passa a ser literário.

Uma crônica é também uma forma de linguagem. Seu assunto pode ser a política, mas sua ambição deveria ser maior do que a reprodução de slogans políticos em frases gramaticalmente completas. A boa crônica observa. Percebe contradições. Encontra detalhes. Desconfia das explicações fáceis. Às vezes, inclusive, admite não saber.

Admitir não saber é uma das formas mais subestimadas de inteligência.

Talvez por isso seja tão raro.

O cronista contemporâneo parece muitas vezes pressionado a chegar ao texto já munido de uma conclusão. Não importa tanto o que aconteceu; importa o que aquilo significa para a narrativa escolhida. O acontecimento deixa de ser objeto de investigação e passa a ser matéria-prima para uma tese previamente estabelecida.

A linguagem sofre primeiro.

Quando tudo é “escândalo”, nada mais escandaliza. Quando toda decisão é “histórica”, a história perde o significado. Quando qualquer divergência é “absurda”, o absurdo deixa de ser uma categoria e vira apenas um adjetivo de combate. E quando todos os adversários são simultaneamente ignorantes, perversos, corruptos e ridículos, começamos a suspeitar que o problema talvez não esteja apenas nos adversários.

As palavras, usadas dessa maneira, deixam de iluminar o mundo. Passam a funcionar como sirenes.

E uma sirene pode ser muito barulhenta sem explicar o incêndio.

Há também uma relação entre pobreza de linguagem e excesso de certeza. Quanto menor o repertório para distinguir nuances, maior a necessidade de recorrer a palavras absolutas. O vocabulário se torna inflamado justamente quando o pensamento se torna raso. Adjetivos ocupam o lugar dos substantivos; acusações ocupam o lugar das evidências; intenções atribuídas ocupam o lugar dos fatos.

O texto parece cheio.

Mas está vazio.

É claro que ninguém exige neutralidade de um cronista. A neutralidade absoluta talvez seja impossível e, em muitos casos, sequer desejável. Um escritor pode ter valores, preferências, paixões e aversões. Pode defender um partido, criticar outro, elogiar um governo e atacar o seguinte.

O que se pode exigir é algo mais modesto e, justamente por isso, mais difícil: honestidade intelectual.

Significa aplicar ao próprio lado uma parte da severidade reservada ao adversário. Significa reconhecer um fato inconveniente quando ele existe. Significa não transformar exceções em regras apenas porque favorecem a tese. Significa saber que uma boa frase não transforma uma afirmação falsa em verdadeira.

E significa preservar alguma distância entre a política e a literatura.

Porque quando a crônica se torna apenas instrumento de uma guerra partidária, o escritor ganha um público fiel, mas perde algo mais importante: o leitor independente. Aquele que não quer necessariamente ser convencido, mas provocado a pensar.

É possível que esse leitor seja hoje uma espécie em extinção. Ou talvez apenas tenha aprendido a desconfiar.

Desconfia do texto que começa com uma indignação perfeita demais. Da narrativa em que todos os fatos se encaixam convenientemente. Do argumento que não admite nenhuma objeção. Da conclusão que já estava pronta antes mesmo de a primeira frase ser escrita.

E desconfia, sobretudo, da certeza que nunca paga o preço de estar errada.

A mediocridade política tem uma vantagem extraordinária: oferece conforto. Ao escritor, dispensa o risco de pensar contra a própria tribo. Ao leitor, poupa o esforço de reconsiderar suas convicções. Aos partidos, fornece uma linguagem de combate pronta para consumo.

É uma indústria eficiente.

Fabrica certezas em série.

Talvez seja justamente por isso que uma crônica devesse fazer o contrário. Em vez de fechar o mundo, abri-lo. Em vez de entregar respostas instantâneas, complicar um pouco as perguntas. Em vez de transformar o adversário em caricatura, tentar compreender por que alguém razoável poderia discordar.

Uma boa crônica não precisa deixar o leitor confortável.

Precisa deixá-lo um pouco menos certo de si mesmo.

E, num tempo em que tanta gente parece ter descoberto a fórmula para nunca estar errada, talvez essa pequena dúvida seja uma das poucas formas de resistência intelectual que ainda nos restam.

Palmarí H. de Lucena