De tempos em tempos, o debate público se encanta com diagnósticos definitivos. Um deles, repetido com frequência crescente, decreta a morte dos shopping centers. A imagem é sedutora: corredores vazios, vitrines apagadas, o consumo migrando silenciosamente para as telas. Mas, como costuma ocorrer com previsões apressadas, a realidade é mais complexa — e menos dramática.
Nos Estados Unidos, é verdade, multiplicam-se os casos de centros comerciais em decadência. O fenômeno dos dead malls tornou-se quase um símbolo de um ciclo econômico encerrado. A ascensão de plataformas digitais, como a Amazon, redefiniu padrões de consumo e expôs as fragilidades de um modelo excessivamente dependente do varejo tradicional. Shoppings concebidos como templos da compra, pouco adaptáveis e replicados em excesso, perderam sua razão de ser.
A partir daí, construiu-se uma narrativa global: a de que o shopping center seria uma instituição em vias de extinção. Trata-se, no entanto, de uma generalização equivocada. O que está em curso não é a morte do shopping, mas a falência de um formato específico — rígido, homogêneo e incapaz de dialogar com as transformações da vida urbana.
O caso brasileiro oferece um contraponto revelador. Em vez de esvaziamento generalizado, observa-se, ainda, vitalidade. Não por resistência inercial, mas por adaptação. Em um país onde o espaço público frequentemente falha em oferecer segurança, conforto e infraestrutura, o shopping center assumiu funções que extrapolam o comércio.
O Manaíra Shopping em João Pessoa é ilustrativo. Longe de sucumbir à concorrência digital, o empreendimento expandiu-se reiteradamente, incorporando novos usos e reforçando sua vocação multifuncional. Ao fazê-lo, deixou de ser apenas um centro de compras para se afirmar como um espaço de convivência, lazer e serviços. Não se trata de exceção, mas de sintoma.
Mas a resiliência dos shoppings no Brasil não se explica apenas por fatores conjunturais. Ela está ancorada em elementos estruturais da própria formação urbana e econômica do país. Em primeiro lugar, há uma questão de função urbana substitutiva: onde faltam praças seguras, calçadas adequadas e equipamentos públicos de qualidade, o shopping passa a desempenhar o papel de espaço público privatizado. Trata-se de uma solução imperfeita, mas funcional.
Em segundo lugar, observa-se uma capacidade de adaptação mais precoce do setor. Diferentemente de muitos empreendimentos norte-americanos, que permaneceram presos ao varejo tradicional por décadas, os shoppings brasileiros incorporaram mais rapidamente serviços, gastronomia qualificada, entretenimento e até funções empresariais. Essa diversificação reduz a dependência exclusiva das vendas no varejo e cria novas fontes de fluxo e receita.
Há ainda um terceiro fator, menos evidente, mas igualmente relevante: a interiorização do consumo. O crescimento de cidades médias no Brasil abriu espaço para a expansão de shoppings como polos regionais, concentrando oferta comercial e de serviços em locais onde antes ela era dispersa ou inexistente. Nesses contextos, o shopping não compete com um ecossistema urbano consolidado — ele ajuda a estruturá-lo.
Isso não autoriza, contudo, qualquer complacência. O avanço do comércio eletrônico também impõe desafios no mercado brasileiro, e a obsolescência não poupa aqueles que se acomodam. A lição que emerge do cenário internacional é clara: sobreviverão apenas os empreendimentos capazes de se reinventar.
A questão central, portanto, não é se os shoppings vão desaparecer, mas que tipo de shopping permanecerá. O futuro não pertence ao espaço dedicado exclusivamente à transação comercial, mas àquele que oferece experiência, permanência e significado.
Falar em “morte dos shoppings” é, assim, menos uma constatação do que um equívoco de perspectiva. O que se observa é um processo seletivo, típico de economias dinâmicas: modelos ultrapassados cedem lugar a novas formas de organização do consumo e da convivência.
No fim, não são os shoppings que estão desaparecendo. É a ideia de que bastaria reunir lojas sob um mesmo teto para garantir relevância. Essa, sim, ficou para trás.
Por Palmarí H. de Lucena