A guerra da comida

A guerra da comida

É no estômago que a política costuma roncar mais alto. Antes de saúde, educação, segurança ou qualquer outra promessa de campanha, existe uma necessidade mais básica: ter o que comer e conseguir pagar pela comida. O eleitor pode discutir ideologia e projetos de país, mas também olha para o carrinho do supermercado e faz uma conta simples: quanto tenho no bolso e quanto consigo levar para casa?

Por isso, a comida sempre teve enorme peso na política. O preço do arroz, do feijão, do café ou da carne transforma a economia em algo concreto. Ninguém precisa entender todos os motivos da inflação para perceber que o supermercado ficou mais caro. A etiqueta na prateleira faz essa tradução.

Em 2022, Lula entendeu bem essa força. A promessa de voltar a comer picanha e tomar cerveja virou um dos símbolos de sua campanha. A picanha não era apenas picanha. Representava a ideia de recuperar um padrão de consumo que muitos brasileiros haviam perdido. Era a promessa de que o dinheiro voltaria a comprar um pouco mais de conforto, prazer e normalidade.

É uma imagem poderosa porque fala diretamente com a vida cotidiana. Um governo pode apresentar números sobre crescimento, emprego ou inflação, mas o eleitor tem sua própria medida da economia. Ele sabe quantos quilos de carne comprava antes, quantas sacolas levava para casa e o que deixou de comprar quando os preços subiram.

A política conhece esse poder. Por isso, em toda eleição, os alimentos acabam virando símbolos. O arroz pode representar inflação. A carne pode representar prosperidade. A cesta básica pode representar proteção social. Uma feira cheia pode representar abundância. A comida deixa de ser apenas comida e passa a contar uma história sobre o país.

Mas existe uma história menos simples por trás do preço no supermercado. Antes de chegar à prateleira, o alimento passa pelo campo, pelo caminhão, pelo armazém, pela indústria e pelo comércio. Cada etapa tem custos. Combustível, energia, crédito, mão de obra, transporte, clima e preços internacionais podem influenciar o resultado final.

O produtor enfrenta ainda uma dificuldade particular: precisa decidir hoje o que plantar para colher meses depois, sem saber exatamente quanto receberá na venda. A chuva não espera a eleição. Uma boa safra pode aumentar a oferta e ajudar o consumidor, mas também derrubar o preço recebido pelo produtor. Uma safra ruim pode produzir o efeito contrário.

É aí que aparece um dos grandes paradoxos da comida. Pode existir produção em excesso e, ao mesmo tempo, gente sem dinheiro para comprar o suficiente. Pode haver alimento no campo e dificuldade na mesa. O problema não é apenas produzir. É fazer com que o alimento chegue ao consumidor a um preço possível, sem destruir a renda de quem produz.

Os excedentes fazem parte dessa equação. Quando uma safra produz mais do que o mercado consegue absorver, é preciso encontrar um destino para ela: armazenamento, exportação, processamento, programas de abastecimento ou outras formas de aproveitamento. Quando nada disso funciona, parte do alimento pode acabar perdida.

Essa é uma questão econômica, mas também política. Um país que produz muito precisa saber o que fazer com aquilo que produz. Não basta comemorar uma safra recorde. É preciso criar condições para que o excesso encontre mercado, o produtor não seja prejudicado e o consumidor possa se beneficiar de uma oferta maior.

O problema é que essa discussão é mais complicada do que um slogan de campanha. O preço de um alimento pode mudar por causa do clima, do câmbio, dos custos de produção, da demanda interna, do mercado internacional ou de uma combinação desses fatores. Mesmo assim, a política procura responsáveis. Quando o preço sobe, alguém é acusado. Quando cai, alguém reivindica o mérito.

A comida tem, porém, uma vantagem eleitoral sobre quase qualquer outro tema: ela pode ser vista. Uma discussão sobre juros exige explicação. Uma mudança fiscal exige contexto. O preço do arroz, não. O consumidor olha para a prateleira e entende imediatamente o que está acontecendo com seu orçamento.

É por isso que a comida funciona tão bem como arma eleitoral. Ela transforma uma questão econômica complexa em experiência pessoal. O eleitor não precisa saber como o mercado funciona para sentir seus efeitos. Basta abrir a carteira.

Mas existe uma diferença entre usar a alimentação como política pública e usá-la apenas como discurso. Uma política séria precisa cuidar dos dois lados da mesa. O consumidor precisa conseguir comprar. O produtor precisa conseguir produzir. A distribuição precisa funcionar. Os alimentos precisam chegar ao mercado. E os excedentes precisam ter destino.

Não existe solução mágica. Baratear artificialmente um alimento pode ajudar no curto prazo, mas criar problemas depois se desestimular a produção. Deixar tudo por conta do mercado também pode não resolver situações de pobreza, desperdício ou falta de acesso. O desafio é encontrar equilíbrio.

Essa parte da discussão é menos bonita para uma campanha. Não cabe facilmente em um jingle. É mais fácil prometer picanha do que explicar como garantir renda, produção, logística e abastecimento. Mas é justamente aí que está a diferença entre uma promessa eleitoral e uma política de Estado.

A comida continuará sendo usada como símbolo porque fala uma linguagem que todo mundo entende. O eleitor pode esquecer uma estatística ou um discurso, mas dificilmente esquece quando chega ao supermercado e percebe que o dinheiro compra menos.

No fundo, a guerra da comida não acontece apenas nos palanques. Ela acontece na fazenda, no caminhão, no armazém, no supermercado e dentro de casa. Acontece entre quem produz e quem compra, entre a abundância e a falta, entre o excesso que precisa encontrar destino e a família que precisa colocar comida na mesa.

A picanha foi apenas um capítulo dessa história. Amanhã pode ser o arroz, o café ou qualquer outro alimento. O produto muda, mas a lógica permanece: quem consegue transformar o preço da comida em uma promessa de futuro ganha uma arma poderosa na disputa pelo voto.

O problema é que promessa não enche geladeira.

No fim, a política pode transformar a comida em símbolo, slogan e arma eleitoral. Mas existe uma medida mais simples para saber se a promessa funcionou: abrir a geladeira, olhar para a mesa e perguntar se o dinheiro finalmente voltou a alcançar a comida.

Palmarí H. de Lucena