A Guerra Antes da Guerra

A Guerra Antes da Guerra

Quando o sol atravessa a caatinga, pouco resta de Canudos além de pedras, silêncio e memória. À primeira vista, é difícil imaginar que aquele lugar tenha mobilizado milhares de soldados, dividido o país e produzido uma das maiores tragédias da história republicana brasileira. No entanto, antes que o primeiro tiro fosse disparado, outra guerra já havia começado: a das palavras.

No final do século XIX, a República era um regime ainda recente e inseguro. Revoltas militares, disputas políticas e o temor da restauração monárquica alimentavam um ambiente de permanente suspeita. Foi nesse cenário que surgiu Antônio Conselheiro, pregador itinerante que percorria o sertão nordestino reconstruindo igrejas, organizando mutirões e reunindo homens e mulheres expulsos pela seca, pela pobreza e pelo abandono.

Às margens do rio Vaza-Barris nasceu Belo Monte, conhecido como Canudos. Ali, milhares de sertanejos encontraram algo raro: proteção, trabalho e pertencimento. A comunidade vivia de uma economia simples, sustentada pela cooperação, pela religiosidade e pelo esforço coletivo. Para seus moradores, representava uma possibilidade de sobrevivência; para muitos observadores distantes, parecia um desafio à ordem estabelecida.

Parte da imprensa, sobretudo no Rio de Janeiro, passou a retratar Canudos como um reduto fanático disposto a restaurar a Monarquia e derrubar a República. Hoje, a maior parte da historiografia considera que não existem evidências consistentes de um plano organizado com esse objetivo. Ainda assim, a narrativa encontrou terreno fértil. Em momentos de insegurança política, o medo costuma aceitar como verdade aquilo que confirma suas apreensões.

As três primeiras expedições militares fracassaram. Cada derrota aumentava o prestígio do arraial e ampliava sua imagem de ameaça. A distância entre o Canudos real e o Canudos imaginado crescia a cada manchete. Em 1897, a quarta expedição reuniu tropas suficientes para destruir definitivamente a comunidade.

O saldo foi devastador. Calcula-se que dezenas de milhares de pessoas tenham morrido durante a campanha, entre combatentes e civis. Relatos da época registram execuções sumárias de prisioneiros e a completa destruição do arraial. Antônio Conselheiro morreu durante o cerco. Depois da vitória militar, seu corpo foi exumado, e sua cabeça enviada para Salvador, onde seria examinada à luz das teorias raciais então em voga, numa tentativa de conferir aparência científica a preconceitos já consolidados.

Entre os que acompanharam a campanha estava Euclides da Cunha. Correspondente de guerra, chegou ao sertão influenciado pela narrativa oficial. Saiu profundamente transformado pelo que testemunhou. Em vez da conspiração descrita pelos jornais, encontrou uma população pobre, resistente e submetida a uma violência desproporcional.

Dessa experiência nasceu Os Sertões, obra que transcende o relato da guerra para tornar-se uma reflexão sobre o Brasil profundo, suas desigualdades e a distância entre o país oficial e o país real. Ao compreender Canudos, Euclides compreendeu também os limites das certezas construídas à distância.

Seria anacrônico chamar aquele episódio de ‘fake news’. O conceito pertence ao nosso tempo. Mas não é anacrônico reconhecer o papel decisivo da propaganda, dos boatos e das representações distorcidas na construção do conflito. Antes da destruição de Canudos, houve a fabricação de um inimigo.

As tecnologias mudaram. A disposição humana para aceitar narrativas simples diante de realidades complexas permanece notavelmente semelhante. Canudos sobrevive como advertência porque recorda uma verdade antiga: guerras raramente começam no campo de batalha. Quase sempre começam na linguagem.

Palmarí H. de Lucena