Durante muito tempo, acreditei sinceramente que viajar tornava as pessoas maiores. Não apenas mais cultas ou mais interessantes — maiores por dentro. Havia algo quase espiritual na ideia de atravessar oceanos, perder-se em idiomas desconhecidos, caminhar sozinho por cidades estrangeiras. Eu imaginava que o deslocamento físico ampliava inevitavelmente a consciência humana.
E talvez, no início, amplie mesmo.
Lembro-me de noites em aeroportos de Frankfurt, São Paulo, Lisboa, Madri e Bangkok, observando pessoas em silêncio diante de telas azuis enquanto o mundo inteiro parecia mover-se sem descanso. Havia uma beleza estranha naquele fluxo contínuo de idiomas, anúncios metálicos, cafés apressados e rostos fatigados tentando aparentar normalidade. Durante anos, associei aquela paisagem à ideia de modernidade sofisticada. O mundo finalmente conectado.
Mas existe um momento específico, em viagens longas, em que alguma coisa começa a mudar. Geralmente acontece de madrugada, entre fusos horários, quando o corpo já não sabe exatamente onde está. Você olha em volta e percebe que os aeroportos internacionais deixaram de parecer portas para culturas diferentes. Tornaram-se versões repetidas do mesmo ambiente emocional. As mesmas vitrines iluminadas. Os mesmos perfumes caros. As mesmas músicas neutras. As mesmas pessoas exaustas tentando parecer tranquilas.
Foi viajando que comecei a perceber algo que hoje já não consigo deixar de ver.
A globalização não produziu apenas cidades parecidas. Produziu pessoas parecidas emocionalmente.
Em New York, Cairo, Buenos Aires, Paris, Reykjavik, Hiroshima e Recife, encontrei variações da mesma fadiga silenciosa. Pessoas permanentemente conectadas e profundamente cansadas. Executivos respondendo mensagens às duas da manhã em hotéis impecáveis. Casais fotografando felicidade para redes sociais enquanto mal se olhavam durante o jantar. Jovens incapazes de caminhar alguns minutos sem transformar a própria experiência em conteúdo.
Durante algum tempo, achei que aquilo fosse apenas impressão de viajante frequente. Hoje já não penso assim.
A tecnologia aproximou geografias enquanto aprofundava certas distâncias interiores. E talvez o aspecto mais inquietante da vida contemporânea seja justamente a obrigação constante de parecer emocionalmente bem. Em praticamente todos os lugares por onde passei, encontrei a mesma estética psicológica: entusiasmo automático, produtividade permanente, positividade performática.
O sofrimento tornou-se constrangedor quando não produz aprendizado visível. A tristeza precisa terminar em superação. A solidão deve ser reinterpretada como autocuidado. Até o esgotamento ganhou nomes elegantes para continuar socialmente aceitável.
As redes sociais apenas aceleraram esse processo. Não vendem somente imagens; vendem atmosferas emocionais. Aos poucos, fomos aprendendo a editar não apenas fotografias, mas também estados interiores. A vida contemporânea transformou-se numa sucessão de versões administráveis de nós mesmos.
E talvez tenha sido isso que mais aprendi viajando pelo mundo: culturas diferentes possuem comidas diferentes, religiões diferentes, arquiteturas diferentes — mas compartilham, cada vez mais, a mesma ansiedade difusa. Existe uma exaustão globalizada pairando sobre hotéis, aeroportos, cafés minimalistas e espaços de coworking. Um cansaço que não parece físico. Algo mais profundo. Como se estivéssemos permanentemente estimulados e emocionalmente anestesiados ao mesmo tempo.
Em certos momentos, caminhando sozinho por cidades desconhecidas, tive uma sensação difícil de explicar. A impressão de que o mundo moderno construiu uma sofisticada máquina de distração coletiva. Nunca tivemos acesso a tanta informação, tantas imagens, tantas possibilidades de entretenimento — e talvez nunca tenhamos tido tanta dificuldade em permanecer honestamente sozinhos com a própria consciência.
Hoje suspeito que uma das crises silenciosas do nosso tempo seja justamente essa incapacidade crescente de lidar com fragilidade humana sem imediatamente transformá-la em espetáculo, discurso motivacional ou mercadoria emocional.
Viajar acabou me ensinando algo que eu não procurava aprender: trocar de país não significa escapar de si mesmo. Em muitos casos, apenas torna impossível continuar distraído.
E talvez seja por isso que tantas pessoas continuem atravessando continentes em busca de experiências transformadoras, apenas para descobrir — num quarto de hotel qualquer, diante da luz fria de um celular — que nenhuma paisagem consegue substituir o difícil trabalho de encarar a própria vida interior.
Por Palmarí H. de Lucena