A França entre a pedra, a música, o vinho e a memória

A França entre a pedra, a música, o vinho e a memória

Crônica de uma viagem entre paisagens, fronteiras e emoções

Há viagens que começam no aeroporto. Outras começam muito antes, numa imagem que se instala sem pedir licença: uma rua molhada, uma janela acesa ao entardecer, o brilho de uma taça sobre a madeira escura de uma mesa. A França já me acompanhava assim, feita de lembranças, leituras e imagens acumuladas. O país imaginado seguia ao meu lado; o verdadeiro esperava, talvez, para contrariá-lo — e para me surpreender.

Partimos de Recife numa noite de outubro. Depois de uma escala em Lisboa, chegamos a Paris no fim da tarde. A claridade oblíqua pousava sobre as fachadas e dava às ruas comuns a aparência de esconderem algum segredo. O outono já se anunciava nas árvores: folhas amarelas, ocres e avermelhadas, recortadas por uma luz baixa, às vezes dourada.

Lembrei-me de Paul Verlaine e dos versos de Chanson d’automne: Les sanglots longs / Des violons / De l’automne. Os longos soluços dos violinos do outono. A estação parecia responder ao poeta. Havia melancolia, mas não tristeza; antes, a beleza delicada de tudo o que muda e, justamente por mudar, se torna precioso. O outono seria a música discreta que nos acompanharia.

Em Saint-Germain-des-Prés, procuramos um café. Eu queria reconhecer primeiro o som da cidade: a colher tocando a porcelana, uma cadeira arrastada pelo chão, o murmúrio das conversas, o garçom que parecia conhecer cada mesa. Nada de extraordinário acontecia. Ainda assim, tive a impressão de que a vida inteira cabia naquele instante. Talvez a literatura comece assim: quando o banal, observado sem pressa, revela uma passagem secreta.

Em Giverny, reencontrei a paisagem que conhecera na primavera. Agora, amarelos, cobres e vermelhos desciam das árvores até o lago. A ponte japonesa continuava em seu lugar; os salgueiros inclinavam os ramos sobre a água. Mas o jardim contava outra história — ou talvez fosse eu quem chegasse com outra escuta.

Pensei em Monet, tentando capturar aquilo que nunca permanece quieto. A luz se oferece por um instante e logo se retira. Na primavera, o jardim parece prometer; no outono, parece recordar. Voltar a um lugar é descobrir que a memória guarda a paisagem, mas não consegue deter sua respiração. Saí dali com a sensação de que olhar é despedir-se e, ao mesmo tempo, permanecer.

Na La Chapelle, o concerto dedicado às Quatro Estações, de Vivaldi, ofereceu-nos outra maneira de experimentar o tempo. A música transformava as mudanças da natureza em som. Pensei na proximidade entre música e pintura: ambas tentam deter aquilo que está sempre passando. A música, porém, desaparece enquanto acontece e, talvez por isso, se aloje tão profundamente na memória.

Deixamos Paris por algum tempo e seguimos para Beaune. Suas ruas, lojas e antigas muralhas convidavam a diminuir o passo. A cidade não precisava de grandes dimensões para nos prender a atenção: o passado continuava misturado à vida presente, enquanto o outono derramava sobre as pedras uma luz dourada.

Em Avignon, as muralhas e o Palácio dos Papas impunham a presença da pedra. O edifício concentra séculos de poder, fé e disputas. Recorda o período em que a cidade se tornou centro da cristandade ocidental, mas também me levou a pensar na relação entre religião e política: quando a fé se aproxima do poder, ganha endereço, estrutura e influência.

Foi em Avignon que vivemos um dos momentos mais intensos da viagem: a apresentação de O Messias, de Georg Friedrich Händel, na igreja de Saint-Symphorien-les-Carmes. Recordei uma noite de inverno em Nova York, quando escutei essa obra pela primeira vez. Anos depois, soube que minha filha também a cantava em São Francisco. Eu não estivera presente, mas a música passou a ligar lembranças de tempos e lugares diferentes.

Na igreja, as paredes antigas acolhiam vozes e instrumentos. A voz solista parecia aproximar-se em tom de confidência; nos grandes momentos corais, a música tomava conta do espaço e fazia vibrar a pedra. Quando chegou o Hallelujah, a emoção já não podia ser separada da arquitetura.

O Messias fala de sofrimento, esperança e redenção. Diante das guerras, da violência e do abuso de poder, pensei na distância entre as promessas de consolo e a realidade de tantas vidas feridas. As palavras de Isaías — Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu — trouxeram-me à lembrança as crianças que crescem em territórios devastados, privadas de segurança e de futuro.

Não espero que a música detenha uma guerra ou repare uma injustiça. A arte não substitui a responsabilidade política, mas pode impedir que nos acomodemos à realidade e recordar que a dignidade humana não deve ser negociada. No coro, cada voz preservava sua identidade; a harmonia, porém, nascia do encontro e da escuta. Saí da igreja emocionado e inquieto.

Depois de Avignon, seguimos para Châteauneuf-du-Pape. Os vinhedos desenhavam sobre a paisagem uma outra relação entre o tempo e a natureza: a do cultivo da uva e da elaboração do vinho. Uma garrafa guarda a geografia de um terreno, o humor de uma estação, o trabalho de muitas mãos e as escolhas de quem acompanha a transformação da fruta.

A viticultura exige atenção ao solo, ao clima, à água e às videiras; exige, sobretudo, paciência. Entre a poda, a floração e a colheita, cada etapa obedece a seu próprio ritmo. A tradição de considerar as fases da Lua em certas práticas agrícolas revela antigos saberes e uma maneira atenta de observar a natureza. O vinho é uma espécie de memória líquida: conserva no aroma e no sabor sinais de um lugar e de um tempo.

Na Alsácia, Colmar nos recebeu com canais, casas coloridas e fachadas que pareciam ter saído de uma caixa de tintas. Na Petite Venise, a água devolvia os edifícios em reflexos trêmulos, prolongando suas cores. A beleza estava tanto na composição das praças quanto no brilho de uma janela sobre o rio.

Eguisheim, com suas casas enxaimel, jardins e fachadas coloridas, tinha uma delicadeza quase doméstica. Em Neuf-Brisach, a geometria das fortificações concebidas por Vauban, durante o reinado de Luís XIV, desenhava outra paisagem: linhas precisas, ângulos e muralhas. O que nascera como defesa de fronteiras tornou-se patrimônio. Há algo de comovente em ver antigas barreiras convertidas em lugares de encontro.

A identidade alsaciana reúne aproximações e tensões. A herança francesa e a alemã convivem nas ruas, nos nomes, na arquitetura, na língua e à mesa. As fronteiras mudaram, mas a convivência permaneceu numa receita, numa palavra, no desenho de uma janela. No outono, folhas e luz dourada acrescentavam à paisagem uma música própria.

Atravessamos também a Alemanha e a Suíça. Em Freiburg, os pequenos canais conhecidos como Bächle acompanhavam as calçadas, enquanto a catedral gótica dominava a praça. Bicicletas, bancas e moradores davam movimento às ruas; o Oktoberfest acrescentava música e confraternização. Guardei também a gentileza de quem nos ajudou pelo caminho. Os monumentos impressionam os olhos; a hospitalidade alcança um lugar mais íntimo.

Em Basileia, o Reno abriu o horizonte. A catedral avermelhada e as ruas antigas pareciam guardar histórias nas pedras, enquanto o rio seguia seu curso, indiferente às fronteiras traçadas pelos homens. França, Alemanha e Suíça pareciam menos separadas do que sugeria qualquer mapa. Cada lugar preservava sua língua e seus costumes, mas a arquitetura e a gastronomia revelavam séculos de contato. Preservar a própria identidade não exige fechar a porta ao outro.

No fim da tarde, retornamos a Colmar. A luz dourada envolvia as fachadas, os canais devolviam as casas em pequenos espelhos e o aroma dos pratos alsacianos se misturava aos perfumes da região. A despedida começava ali, feita de beleza, memória e hospitalidade.

De volta a Paris, a cidade já não era exatamente aquela que nos recebera. Reencontrar uma rua ou uma fachada é perceber que cada coisa traz consigo a sombra da primeira vez. Voltamos ao Marais, onde edifícios antigos, lojas, galerias e cafés convivem com a energia da cidade contemporânea.

Na Place des Vosges, as fachadas harmoniosas, as arcadas e os telhados de ardósia compunham uma elegância serena. Visitamos a casa de Victor Hugo, hoje museu. Autor de Os Miseráveis e O Corcunda de Notre-Dame, ele deu voz aos esquecidos, denunciou a injustiça e defendeu a liberdade e a dignidade humana. Percorrer sua antiga residência foi aproximar-me do homem por trás dos livros e lembrar como a literatura participa da vida de uma sociedade.

O Musée de l’Homme acrescentou outra perspectiva. Depois de tantas cidades e vestígios de civilizações, pensar na história de nossa espécie — em suas origens, diferenças e culturas — mudou a escala da viagem. O museu nos devolveu uma pergunta essencial: o que significa ser humano para além das fronteiras, das línguas e das épocas?

Em outro momento, a Torre Eiffel apareceu sob a chuva. O céu cinzento e a névoa não diminuíam sua beleza; talvez a tornassem mais próxima, quase confidencial. Há lugares cuja grandeza não depende do céu azul nem da luz perfeita. A torre continuava ali, firme, compartilhando conosco a chuva e o tempo.

Reservamos para Notre-Dame o encerramento de nosso percurso por Paris. Na Île de la Cité, as torres, os portais esculpidos, as rosáceas e a verticalidade gótica concentravam parte da memória da cidade. A catedral atravessou séculos, revoluções e transformações. O incêndio de 2019 e a reconstrução acrescentaram à sua história uma dimensão de fragilidade — e também a capacidade humana de recomeçar.

Entrar em Notre-Dame é entrar numa parte essencial da memória europeia. Ali se cruzam fé, arte, história e a experiência de gerações. A luz dos vitrais, a altura das abóbadas e a delicadeza dos detalhes convidam a uma pausa que não depende de crença ou explicação. Há espaços que nos fazem diminuir o passo e escutar o silêncio.

Depois da visita, jantamos no Le Procope. Entre as mesas, os detalhes da decoração e a intimidade do salão, a refeição ganhou a dimensão de um ritual de encerramento. Não era apenas o último jantar: era nossa maneira de agradecer à cidade e reunir as lembranças acumuladas. A despedida se prolongava à mesa, entre a memória de Notre-Dame e os ecos de outras épocas.

Diante da catedral e, depois, à mesa do Le Procope, tive a sensação de que a viagem encontrava sua síntese. Havíamos percorrido cidades protegidas por muralhas, contemplado palácios e catedrais, escutado Vivaldi e Händel, caminhado entre vinhedos e atravessado fronteiras. Em cada lugar, alguma coisa nos falara sobre a passagem do tempo e a persistência da memória.

Em novembro, chegou a hora de partir. O aeroporto devolveu a viagem aos horários, às malas e aos portões de embarque. Mas nenhuma partida coincide inteiramente com o fim. Giverny permaneceu comigo em duas luzes — a primavera que eu já conhecia e o outono que agora se acrescentava à lembrança. Avignon guardava Händel; Châteauneuf-du-Pape, os vinhedos; a Alsácia, os canais de Colmar e as muralhas de Neuf-Brisach. O Reno seguia seu curso, enquanto Paris se despedia na pedra luminosa de Notre-Dame.

Talvez viajar seja sair à procura de um país e regressar com instantes que não se deixam organizar inteiramente. A França não se entrega por completo, nem precisa. Deixa sinais na água, na pedra, no vinho, na música e na luz. A Europa se revela menos como um conjunto de fronteiras do que como uma conversa antiga entre povos, paisagens e histórias.

Não trouxe comigo uma versão definitiva dos lugares visitados. Trouxe a lembrança de ter estado atento ao mundo: à beleza de uma fachada, ao silêncio de uma igreja, à vibração de um coro, à água de um canal, à generosidade de um desconhecido e à luz que insiste mesmo nos dias de chuva. Talvez essa seja a permanência de uma viagem: não o número de cidades percorridas, mas a transformação discreta do olhar. Viajamos também para reconhecer, no mundo, alguma coisa de nós mesmos.

Palmarí H. de Lucena