Cátia de França: a artista que fez da memória uma forma de resistência

Cátia de França: a artista que fez da memória uma forma de resistência

Uma viagem pela trajetória de Cátia de França, artista que transformou literatura, memória e resistência em uma das obras mais singulares da cultura brasileira — e que agora recebe o título de Doutora Honoris Causa da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

Há artistas que acompanham seu tempo. Outros parecem dialogar simultaneamente com o passado, o presente e aquilo que ainda está por vir. Cátia de França pertence a essa rara categoria. Sua trajetória, construída longe dos atalhos da indústria cultural, transformou-se em uma das expressões mais originais da música brasileira.

Em sua obra convivem literatura, ancestralidade, invenção musical e uma profunda consciência das raízes que a formaram. Mulher negra, nordestina e paraibana, Cátia construiu uma linguagem artística difícil de enquadrar em rótulos. Sua música atravessa fronteiras sonoras com a mesma naturalidade com que percorre diferentes territórios da imaginação.

Baião, xote, blues, folk, rock e outras sonoridades encontram-se em suas canções não como simples exercício de experimentação, mas como manifestações de uma visão de mundo em que tradição e reinvenção caminham lado a lado.

Sua história começa em um ambiente onde o conhecimento era compreendido como instrumento de emancipação. Filha de Adélia de França, professora negra de grande importância para a história da educação paraibana, Cátia cresceu cercada por livros, histórias e valores que moldariam sua sensibilidade artística. Da mãe, herdou não apenas o amor pela leitura, mas também a compreensão de que educação, cultura e conhecimento podem ser instrumentos de transformação.

A literatura chegou antes da fama. Os livros foram sua primeira escola estética. Talvez por isso suas composições carreguem uma densidade rara na música popular brasileira. Em suas canções, a palavra nunca aparece como mero ornamento da melodia. Ela ocupa posição central, estabelecendo pontes entre poesia e música, entre reflexão e emoção, entre memória e invenção.

A influência de escritores como João Cabral de Melo Neto e José Lins do Rego atravessa momentos importantes de sua produção. Cátia não simplesmente transforma literatura em canção: ela recria universos literários a partir de sua própria experiência, de suas referências nordestinas e de sua imaginação.

Quando deixou a Paraíba, ainda jovem, levava consigo mais do que o desejo de construir uma carreira artística. Levava uma forma singular de olhar o mundo. O Nordeste permaneceu presente em sua obra não como cenário folclórico, mas como experiência viva, complexa e profundamente humana.

Seu álbum de estreia, 20 Palavras ao Redor do Sol, lançado em 1979, revelou imediatamente uma artista fora dos padrões convencionais. O disco apresentava uma combinação pouco comum de sofisticação poética e inventividade musical, dialogando com a literatura de João Cabral de Melo Neto e com uma sonoridade que recusava fronteiras rígidas.

Era um período em que o Brasil ainda vivia sob a sombra da ditadura militar. Fazer arte significava, muitas vezes, desafiar limites impostos à imaginação e à liberdade de expressão. Nesse contexto, a obra de Cátia afirmava-se pela independência intelectual e pela recusa às fórmulas fáceis.

Com Estilhaços, lançado em 1980, aprofundou esse percurso. Os arranjos ousados aproximavam sonoridades nordestinas de influências internacionais, criando uma paisagem musical singular. O disco consolidou uma característica que se tornaria permanente em sua trajetória: a capacidade de dialogar com o mundo sem abandonar o lugar de onde veio.

Ao lado de artistas como Elba Ramalho, Amelinha, Zé Ramalho, Sivuca e Xangai, participou de um momento importante de expansão da cultura nordestina no cenário nacional. Ainda assim, seu caminho permaneceu singular. Enquanto muitos buscavam adequação às exigências do mercado fonográfico, Cátia manteve fidelidade à própria linguagem.

Essa escolha teve custos em termos de visibilidade comercial, mas lhe garantiu algo mais raro: independência criativa.

Ao longo das décadas, sua obra transformou-se em um território onde memória, identidade e imaginação se encontram. Seus versos falam de pertencimento sem cair na nostalgia. Dialogam com a tradição sem se tornarem prisioneiros dela. Celebram a cultura popular ao mesmo tempo em que desafiam fronteiras estéticas e intelectuais.

Em No Bagaço da Cana: Um Brasil Adormecido, de 2012, inspirado no universo literário de José Lins do Rego, Cátia voltou seu olhar para questões históricas e sociais profundamente enraizadas na formação brasileira. Já em Hóspede da Natureza, de 2016, ampliou sua reflexão para temas ligados à espiritualidade, à ecologia e à relação entre humanidade e mundo natural.

Décadas após sua estreia, o reconhecimento continuou alcançando sua obra. Em 2024, lançou No Rastro de Catarina, álbum gravado ao vivo em João Pessoa, com novas canções e releituras de sua trajetória. O trabalho lhe rendeu uma indicação ao Grammy Latino, na categoria Melhor Álbum de Rock ou Música Alternativa em Língua Portuguesa.

O prêmio não veio. Mas a relevância de uma trajetória como a de Cátia de França jamais dependeu de troféus. Seu legado está inscrito em outro lugar: na permanência de uma obra que atravessa gerações sem perder a capacidade de emocionar, provocar reflexão e inspirar novos artistas.

E é justamente nesse ponto que o reconhecimento da Universidade Federal da Paraíba ganha uma dimensão especial.

Em agosto de 2026, o Conselho Universitário da UFPB aprovou a concessão do título de Doutora Honoris Causa a Cátia de França. A homenagem reconhece sua contribuição à cultura paraibana e nordestina e a importância de sua produção artística para a memória, a identidade e a diversidade cultural.

O título possui um significado que ultrapassa o caráter honorífico. Cátia sempre fez da arte uma forma de conhecimento. Sua relação com a literatura, com a educação, com a cultura popular e com a memória de seu território atravessa toda a sua obra.

Agora, é a própria universidade de seu estado que reconhece essa trajetória.

A homenagem também estabelece um elo simbólico entre a menina que cresceu cercada de livros na Paraíba e a artista que transformou esses livros, suas experiências e suas raízes em uma obra que ultrapassou as fronteiras do estado e do país.

Num tempo marcado pela velocidade e pelo esquecimento, sua música continua a lembrar que a arte também é um exercício de memória. Escutá-la hoje é perceber que algumas vozes ultrapassam os limites de sua época. Tornam-se parte da paisagem cultural de um país.

Cátia de França permanece entre essas vozes. Não apenas como cantora, compositora, instrumentista e escritora, mas como uma artista que transformou experiência em criação, literatura em música, memória em linguagem e resistência em permanência.

Receber o título de Doutora Honoris Causa da Universidade Federal da Paraíba é, portanto, mais do que uma homenagem a uma carreira. É o reconhecimento de uma obra que ajudou a pensar a Paraíba, o Nordeste e o Brasil através da música, da literatura e da memória.

Sua trajetória mostra que a cultura também pode ser uma forma de pensamento. Que uma canção pode carregar uma biblioteca. Que a memória de um lugar pode atravessar gerações. E que uma artista pode transformar as experiências de sua terra em uma linguagem capaz de dialogar com o mundo.

Talvez seja essa a marca dos artistas verdadeiramente necessários: quando tudo parece passar, suas obras permanecem.

E Cátia de França permanece — agora também reconhecida, por sua própria universidade, como Doutora Honoris Causa.

Palmarí H. de Lucena