A fome como escolha política

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A fome como escolha política

A fome raramente se anuncia com estardalhaço. Ela se instala aos poucos, diluída no orçamento doméstico, na redução silenciosa das refeições, na substituição do essencial pelo possível. Quando retorna, não o faz como fatalidade natural, mas como resultado de decisões — ou de sua ausência. Em um país capaz de produzir alimentos em escala global, a insegurança alimentar é menos um problema de oferta e mais uma questão de acesso, como já se observou em períodos distintos da vida nacional

O Brasil contemporâneo convive com prateleiras cheias e mesas vazias. A contradição revela um arranjo social em que renda insuficiente, inflação de alimentos, informalidade do trabalho e descontinuidade de políticas públicas convergem para produzir escassez. A fome atual é urbana e difusa, atinge periferias metropolitanas, lares chefiados por mulheres, territórios indígenas e comunidades tradicionais. É menos visível do que no passado — e justamente por isso mais fácil de ser ignorada.

A experiência recente do país demonstra que esse quadro não é inevitável. Houve um período em que a insegurança alimentar grave recuou de forma consistente, resultado de uma arquitetura de políticas públicas que tratava a alimentação como direito. A combinação de transferência de renda, valorização do salário-mínimo, compras públicas da agricultura familiar, fortalecimento da merenda escolar e coordenação federativa produziu efeitos mensuráveis: queda da fome extrema, dinamização de economias locais e melhora dos indicadores nutricionais. Não se tratou de um milagre, mas de continuidade institucional.

O retrocesso veio quando essa engrenagem foi desmontada. A interrupção ou esvaziamento de programas, a perda de centralidade da segurança alimentar na agenda pública e a fragilização dos mecanismos de coordenação produziram um efeito conhecido: a fome voltou com rapidez. Ela retorna sempre mais rápido do que a política, porque a renda some antes que a mesa se refaça. O abandono de políticas estruturantes mostrou que avanços sociais não se sustentam por inércia.

Diante da carência, reaparecem promessas totais. Soluções rápidas, discursos morais ou punitivos e apelos à caridade tendem a ocupar o espaço deixado pela política. Funcionam como paliativos simbólicos: aliviam consciências, mas não constroem rotinas de proteção. Ao deslocar a responsabilidade do coletivo para o indivíduo, substituem direitos por favores e tornam a fome administrável, não superável.

A resposta eficaz exige o oposto:instituições que funcionem, coordenação entre União, estados e municípios, previsibilidade orçamentária e uso consistente de dados territoriais. As evidências acumuladas indicam que políticas integradas — renda, abastecimento, agricultura familiar, saúde, educação e assistência — são mais eficazes do que ações fragmentadas. O desafio contemporâneo não é redescobrir a fórmula, mas reafirmar o compromisso com sua sustentação no tempo.

Tratar a fome como escolha política implica abandonar atalhos retóricos e enfrentar o concreto. Significa olhar o preço do arroz antes do slogan, o leite da criança antes da promessa, o território antes da estatística agregada. Entre a promessa vazia e a escassez naturalizada, existe um caminho menos vistoso e mais eficaz: garantir direitos de forma contínua. Quando isso acontece, a fome deixa de ser destino recorrente e passa a ser um problema público com solução possível — e exigível.

Por Palmarí H. de Lucena