Durante anos, a FIFA vendeu ao mundo a imagem de uma instituição técnica, rigorosa e imparcial. Apresentava-se como uma espécie de árbitro supremo do futebol global, acima das disputas políticas e das conveniências nacionais. Era uma narrativa conveniente para a própria entidade e amplamente aceita por quem preferia enxergar o esporte como um território separado das relações de poder. Hoje, sob a gestão de Gianni Infantino, essa narrativa parece cada vez mais difícil de sustentar.
Quem acompanhou a preparação da Copa do Mundo de 2014 no Brasil recorda o tom adotado pela entidade. Não havia margem para relativizações. Infraestrutura, aeroportos, mobilidade urbana, segurança, legislação especial para o evento, compromissos comerciais e cronogramas de obras eram acompanhados sob intensa pressão. A FIFA se colocava como guardiã de padrões inegociáveis e tratava qualquer atraso ou dificuldade como evidência de que o país anfitrião precisava se adequar às exigências de uma organização que se julgava acima das circunstâncias locais.
A justificativa era sempre a mesma: os padrões da FIFA eram universais. As regras valiam para todos. O sucesso de um torneio dependeria justamente da capacidade de preservar esses critérios independentemente do país-sede.
Entretanto, quando o centro de gravidade do futebol internacional se desloca para os Estados Unidos, a rigidez parece dar lugar a uma notável flexibilidade. Questões que em outros contextos poderiam gerar críticas severas passam a ser enquadradas como desafios normais de organização. Problemas são relativizados, dificuldades são contextualizadas e obstáculos políticos tornam-se elementos a serem administrados com cautela diplomática. O que antes era tratado como descumprimento de padrões passa a ser interpretado como consequência das especificidades do anfitrião.
Essa mudança de postura não pode ser compreendida apenas como uma diferença de gestão. Ela revela uma transformação mais profunda na forma como a FIFA se relaciona com o poder. Sob Infantino, a entidade parece ter abandonado qualquer pretensão de neutralidade institucional para adotar uma lógica mais próxima daquela que organiza as relações internacionais contemporâneas: os princípios permanecem universais no discurso, mas sua aplicação varia de acordo com o peso político e econômico dos envolvidos.
É nesse contexto que a proximidade entre Infantino e Donald Trump adquire relevância. O problema não está na existência de relações institucionais entre dirigentes esportivos e governantes. Grandes eventos sempre exigiram interlocução política. A questão é a impressão crescente de que a FIFA deixou de agir como uma organização que estabelece condições para os anfitriões e passou a agir como uma organização disposta a adaptar suas próprias condições em função dos interesses estratégicos do anfitrião mais poderoso.
A contradição torna-se ainda mais evidente quando a própria FIFA busca ocupar o terreno da autoridade moral global. Nos últimos anos, Infantino passou a apresentar a entidade não apenas como administradora do futebol, mas como uma espécie de agente diplomático capaz de promover paz, diálogo e entendimento entre nações. A criação de premiações e distinções associadas a esses valores faz parte desse movimento de autopromoção institucional. Há algo de revelador nessa pretensão. A mesma organização que reivindica para si o papel de promotora da paz e da fraternidade universal demonstra considerável dificuldade em aplicar de forma uniforme os princípios que diz defender. O problema não é a defesa da paz. O problema é a tentativa de transformar valores universais em ativo de reputação enquanto decisões concretas continuam submetidas às conveniências do poder político e econômico.
Quando uma entidade esportiva passa a distribuir símbolos de virtude global ao mesmo tempo em que flexibiliza critérios para os atores mais influentes do sistema internacional, a mensagem transmitida é inevitavelmente contraditória. A paz, nesse contexto, corre o risco de se tornar menos um princípio e mais um elemento de branding institucional. E a autoridade moral, em vez de ser conquistada pela coerência, passa a ser reivindicada por meio de cerimônias, discursos e fotografias cuidadosamente encenadas.
O contraste com a experiência brasileira é revelador. O Brasil foi frequentemente tratado como um país que precisava provar sua capacidade de atender às expectativas da entidade. Os Estados Unidos, ao contrário, parecem ser tratados como um parceiro cuja centralidade econômica justifica acomodações e flexibilizações. Não se trata necessariamente de uma conspiração nem de uma preferência ideológica explícita. Trata-se de algo mais banal e, justamente por isso, mais significativo: a reprodução automática da hierarquia internacional dentro de uma instituição que afirma representar uma comunidade global baseada em regras comuns.
A chamada “trumpinização” da FIFA talvez não resida apenas em declarações públicas, fotografias protocolares ou demonstrações de simpatia política. Ela se manifesta na naturalização de um duplo padrão. Países periféricos são cobrados em nome dos princípios; potências centrais são compreendidas em nome das circunstâncias. Uns recebem exigências; outros recebem justificativas. Uns são lembrados de suas obrigações; outros são poupados em razão de sua importância estratégica.
O problema desse modelo não é apenas moral. É institucional. Organizações internacionais preservam sua autoridade quando demonstram consistência. Quando os critérios mudam conforme o poder de quem está sendo avaliado, a legitimidade das próprias regras começa a se deteriorar. A norma deixa de ser percebida como um princípio compartilhado e passa a ser vista como um instrumento aplicado seletivamente.
Talvez esse seja o legado mais duradouro da era Infantino. Não a expansão dos torneios, os novos formatos de competição ou os recordes comerciais. O que poderá permanecer é a consolidação de uma FIFA que continua falando a linguagem do universalismo esportivo enquanto pratica, na realidade, uma política de exceções. Uma FIFA que exige disciplina dos mais fracos, oferece compreensão aos mais fortes e, ao fazê-lo, revela que o futebol global está muito menos distante das relações de poder do que seus dirigentes gostariam de admitir.
A questão central, portanto, não é Donald Trump, nem mesmo Gianni Infantino. Ambos são, em alguma medida, personagens de uma transformação mais ampla. O que está em jogo é a crescente dificuldade das instituições globais em sustentar a aparência de neutralidade em um mundo cada vez mais organizado por assimetrias de poder. O futebol, por sua escala e visibilidade, apenas torna essa tensão mais visível.
Durante muito tempo, a FIFA pôde se apresentar como uma autoridade que pairava acima dos interesses nacionais, aplicando regras comuns a uma comunidade global unificada pela paixão esportiva. Hoje, essa imagem parece menos convincente. Não porque a entidade tenha abandonado seus ideais declarados, mas porque a distância entre seus princípios e suas práticas tornou-se mais perceptível.
Nenhuma organização internacional consegue sobreviver apenas pela força de seus regulamentos. Sua legitimidade depende, em última instância, da crença de que as normas são aplicadas de maneira previsível e relativamente equitativa. Quando essa crença se enfraquece, a autoridade formal permanece, mas a autoridade moral começa a se dissipar.
Talvez seja cedo para afirmar que a FIFA atravessa esse processo de forma irreversível. Ainda assim, a comparação entre diferentes anfitriões, diferentes exigências e diferentes níveis de tolerância levanta uma questão que a entidade dificilmente conseguirá evitar nos próximos anos: até que ponto seus padrões são realmente universais e até que ponto refletem as hierarquias do mundo que ela pretende transcender?
No campo, o futebol continua oferecendo uma das mais raras experiências de igualdade competitiva produzidas pela vida moderna. A bola não reconhece passaportes, tamanho de mercado ou influência diplomática. Instituições, porém, não desfrutam dessa mesma simplicidade. E é justamente na distância entre a igualdade prometida pelo jogo e as desigualdades administradas por seus dirigentes que se encontra a reflexão mais interessante — e talvez mais desconfortável — sobre o futuro da governança global do esporte.
Palmarí H. de Lucena