A família é um patrimônio político

A família é um patrimônio político

Há famílias que guardam fotografias antigas, cartas, móveis e histórias que passam de uma geração para outra. Há outras que, além disso, guardam uma tradição política.

Não estou falando de nenhuma família em particular. Esta é uma crônica, não uma denúncia. Não pretende apontar culpados, identificar personagens ou transformar suspeitas em acusações. O assunto é outro: a velha e persistente relação entre família, poder e vida pública.

Há uma palavra pouco elegante, mas bastante útil para pensar nisso: patrimonialismo.

Em termos simples, é a dificuldade de separar aquilo que pertence a todos daquilo que parece pertencer a quem, naquele momento, ocupa o poder. É quando o espaço público começa a adquirir um certo ar de sala de visitas: entram os amigos, chegam os parentes, acomodam-se os aliados e, quando alguém pergunta quem autorizou a mudança dos móveis, a resposta costuma ser um tanto vaga.

A política tem dessas delicadezas.

Parentes de políticos podem ser perfeitamente competentes. Podem ter formação, experiência, vocação e até mais preparo do que muitos adversários. O parentesco, por si só, não transforma ninguém em incapaz nem impede alguém de construir uma trajetória legítima.

O problema começa quando o sobrenome passa a funcionar como uma espécie de currículo antecipado.

É aí que a família deixa de ser apenas uma relação de parentesco e passa a ser também uma estrutura de poder.

Nesse cenário aparecem familiares, cônjuges e pessoas próximas de ocupantes de mandatos eletivos.

Não se trata de afirmar que o parentesco ou a proximidade com uma autoridade sejam, por si sós, vantagens indevidas. Tampouco de negar a essas pessoas o direito de participar da vida pública, desenvolver projetos próprios ou construir uma carreira política.

A questão é mais sutil.

Um mandato eletivo proporciona visibilidade. A presença em solenidades, eventos, ações sociais, reuniões comunitárias e outros espaços públicos pode tornar familiares e pessoas próximas conhecidos por milhares de cidadãos que, antes, talvez nem soubessem seus nomes.

A fotografia, nesse caso, não é apenas fotografia.

Ela registra, mas também comunica.

Uma presença constante produz reconhecimento. O reconhecimento produz familiaridade. A familiaridade pode produzir confiança. E a confiança, em época de eleição, pode ser uma moeda bastante valorizada.

Assim aparece uma expressão curiosa: ativo eleitoral.

É uma linguagem quase de contabilidade.

Há quem contabilize patrimônio, imóveis, ações e investimentos. A política contabiliza presença, influência, alianças, grupos, lembranças e sobrenomes.

Não se trata necessariamente de dinheiro. Às vezes, o ativo mais valioso é simplesmente ser conhecido.

Um familiar ou pessoa próxima de um ocupante de mandato eletivo aparece hoje numa solenidade, amanhã numa ação social, depois numa fotografia, em seguida numa reunião comunitária. Nada disso, isoladamente, precisa significar qualquer irregularidade. Pode ser apenas participação na vida pública.

Mas a política é uma arte curiosa: sabe transformar repetição em memória.

E memória, quando chega a eleição, pode ser uma forma bastante eficiente de comunicação política.

É nesse ponto que aparece outra palavra interessante: eleitoreiro.

Eleitoral é aquilo que diz respeito à eleição.

Eleitoreiro é aquilo que o observador começa a enxergar com uma sobrancelha levantada.

A diferença pode estar na intenção. E intenção, como todos sabemos, é uma coisa difícil de fotografar.

Por isso, a crônica deve desconfiar sem condenar.

Perguntar sem sentenciar.

Observar sem vestir a toga.

Quando uma família inteira constrói sucessivas trajetórias políticas, estamos diante de vocações individuais ou de uma engrenagem familiar de poder?

Quando um familiar ou cônjuge de alguém que ocupa mandato eletivo se transforma em candidato, estamos vendo nascer uma liderança ou apenas assistindo à conversão de visibilidade pública em capital eleitoral?

Quando o mesmo sobrenome atravessa eleições, administrações, parlamentos e gerações, estamos diante de uma tradição política ou de uma concentração de influência?

São perguntas. Não acusações.

As respostas cabem ao eleitor, ao jornalista, ao pesquisador e, quando houver fatos concretos que exijam exame, às instituições responsáveis.

Ao cronista cabe uma tarefa menos importante e, talvez por isso mesmo, mais divertida: olhar para a cena e perguntar por que aquilo parece tão normal.

O patrimonialismo moderno não precisa de castelo, coroa ou brasão.

Ele pode vestir terno, aparecer numa fotografia oficial, discursar diante de um microfone e publicar tudo nas redes sociais.

Pode também mudar de partido, atravessar eleições e reaparecer com novos discursos, mantendo, entretanto, os mesmos sobrenomes e as mesmas relações de proximidade.

A democracia permite que qualquer cidadão dispute uma eleição. Mas também precisa cuidar para que ninguém chegue à largada com uma pista construída especialmente para si.

Família é afeto.

Política é escolha.

Estado é patrimônio coletivo.

Quando essas três coisas se misturam demais, o observador começa a prestar atenção.

E então surge uma pergunta que talvez devesse acompanhar toda democracia:

Quando a visibilidade proporcionada pelo exercício do poder começa a se transformar em patrimônio político, quem está realmente pagando a conta?

No fim, resta a urna.

Ela não tem parentesco, memória familiar nem preferência por sobrenome.

Não sabe quem é filho, esposa, irmão, primo, companheiro ou aliado de quem.

Conta votos.

Talvez seja uma das poucas máquinas da vida pública que ainda consiga lembrar a todos de uma verdade simples: o poder é temporário, o mandato é público e os vínculos familiares ou políticos, por mais importantes que sejam, não transformam o patrimônio coletivo em propriedade particular.

O Estado é de todos.

Palmarí H. de Lucena