A Europa cabe numa estrada — e num copo de vinho

A Europa cabe numa estrada — e num copo de vinho

Uma crônica de viagem entre França, Alemanha e Suíça

Há um momento, nas viagens, em que o mapa deixa de ser um objeto confiável. Não porque esteja errado, mas porque não sabe contar o cheiro de uma padaria, o ruído de uma bicicleta sobre as pedras ou a maneira como a luz da manhã se demora numa fachada cor de damasco. O mapa indica fronteiras; os sentidos, felizmente, não têm esse hábito.

Saímos de Colmar com a disposição de quem acredita ser possível conhecer três países antes do jantar. É uma ambição tipicamente contemporânea: queremos atravessar séculos, provar especialidades locais, aprender alguma coisa sobre a história e ainda voltar com fotografias suficientes para convencer os amigos de que estivemos realmente lá.

A primeira parada, Eguisheim, parece conspirar a nosso favor.

O vilarejo se enrola sobre si mesmo em ruas circulares, como se tivesse sido construído por alguém que preferia a conversa ao destino. As casas enxaimel exibem suas vigas escuras, as paredes se vestem de amarelo, rosa e azul, e as janelas transbordam flores com uma exuberância quase teatral. Há gerânios que parecem ter recebido instruções de um cenógrafo.

Caminhamos devagar. Não por disciplina contemplativa, mas porque as ruas pedem desvios, as vitrines provocam pequenas distrações e cada esquina parece guardar uma nova combinação de cores. Em Eguisheim, até perder-se é uma forma de chegar.

A Alsácia tem essa graça de região que aprendeu a viver entre mundos. Sua história foi atravessada por disputas entre França e Alemanha, e isso se percebe não apenas nos livros, mas também na arquitetura, na língua, na comida e na maneira como certas tradições se recusam a escolher um único lado. Aqui, a identidade não parece uma declaração; parece uma receita transmitida de geração em geração, com ingredientes de procedências diversas.

Talvez por isso o vinho tenha tanta importância. O Riesling, o Gewürztraminer e outros brancos da região carregam nos nomes a lembrança de uma geografia cultural que não cabe inteiramente em nenhuma bandeira. Não é preciso ser especialista para compreender a lição. Basta uma taça, alguma curiosidade e a disposição de não fingir que se sabe tudo sobre o que se está bebendo.

Deixamos as flores para trás e seguimos até Neuf-Brisach, onde o passeio sofre uma mudança de humor. Se Eguisheim parece ter sido desenhado por um poeta, Neuf-Brisach tem a assinatura de um matemático com preocupações militares.

A cidade fortificada concebida por Vauban no reinado de Luís XIV organiza-se com uma precisão que quase dá vontade de pedir desculpas por andar fora do traçado. Muralhas, baluartes e ruas regulares compõem uma geometria de defesa. O lugar foi pensado para resistir, controlar, impedir. Hoje, porém, recebemos suas formas com a tranquilidade de turistas que não carregam canhões nem ambições territoriais.

É uma das ironias mais agradáveis das viagens: visitar como patrimônio aquilo que, em outra época, foi construído para produzir medo.

A estrada prossegue, e a mudança de país acontece sem a solenidade que os livros escolares costumavam lhe atribuir. Não há necessariamente um instante cinematográfico, uma cortina que se abre ou uma música que anuncia a Alemanha. Há placas, estradas, paisagens e, de repente, outras palavras nos letreiros.

Freiburg nos recebe com o movimento de uma cidade que parece ter descoberto cedo que o futuro pode ser habitável.

No centro histórico, os pequenos canais conhecidos como Bächle acompanham as calçadas. A água corre por sulcos estreitos, tão discretos que quase se poderia confundi-los com um detalhe decorativo, não fosse o som insistente que produzem. Crianças os observam como se fossem brinquedos; adultos desviam deles com a naturalidade de quem já aprendeu a negociar com a cidade. Existe até uma lenda local segundo a qual quem cai acidentalmente num desses canais acabará se casando com alguém de Freiburg. Uma superstição útil para o turismo e, para os distraídos, uma advertência matrimonial.

A catedral domina a praça do mercado, enquanto as bancas oferecem frutas, flores, pães e especialidades regionais. O gótico, aqui, não está isolado numa redoma de admiração. Convive com o cheiro da comida, com as conversas e com o comércio. A história não exige silêncio absoluto; aceita ser observada enquanto a vida continua.

Em outubro, Freiburg também tem seu próprio Oktoberfest. A festa não é uma simples cópia da celebração de Munique: mistura a tradição bávara com a alegria badense, em noites de música ao vivo, trajes típicos, cerveja produzida para a ocasião e pratos regionais. Dentro da tenda, o som das bandas se mistura às conversas e ao tilintar das canecas; do lado de fora, a cidade segue seu ritmo habitual de bicicletas, bondes e ruas medievais. Por algumas horas, a paisagem organizada dá lugar à animação coletiva — e até quem chegou apenas para conhecer o centro histórico acaba atraído pelo barulho da festa.

Outubro tem também suas lembranças brasileiras. No dia 12, o Dia das Crianças enche lojas e casas de brinquedos, passeios e pequenas celebrações. Na Alemanha e na Suíça, as datas e os costumes são outros, mas, em Freiburg, os canais, as praças e as atrações da temporada de outono oferecem motivos de sobra para os pequenos se divertirem. Viajar nessa época é perceber como cada lugar inventa suas próprias ocasiões para reunir famílias e amigos.

A viagem, entretanto, tem seus próprios caprichos. O relógio insiste em nos lembrar que o dia não é infinito. Há sempre mais uma praça, uma igreja, um café, uma rua que parece prometer a descoberta definitiva. O viajante aprende, cedo ou tarde, que o segredo não está em ver tudo, mas em escolher o que merece ser visto sem olhar o tempo todo para o relógio.

Seguimos para Basileia, na Suíça, e o Reno surge como uma mudança de escala. O rio não precisa de fachadas coloridas nem de monumentos para chamar a atenção. Basta estar ali, largo e indiferente, carregando a luz do céu e a memória de tudo o que já passou por suas águas.

Basileia vive desse encontro entre movimento e permanência. É uma cidade de comércio, museus, arte e circulação internacional, situada numa região em que as fronteiras entre Suíça, França e Alemanha estão tão próximas que a geografia parece brincar de aproximação.

Na cidade antiga, as construções históricas convivem com a energia de um centro cultural importante. A catedral de arenito avermelhado, as ruas estreitas e as fachadas preservadas contam uma história que não se limita a uma única época. E, perto do rio, a paisagem se abre. O Reno faz aquilo que os bons rios sempre fizeram: põe as coisas em perspectiva.

Diante dele, a noção de fronteira parece menos uma verdade natural do que uma convenção humana. O rio atravessa territórios sem consultar os governos, embora os governos tenham passado séculos tentando determinar o significado de suas margens. A água não se interessa por passaportes.

Talvez seja essa a grande diversão de percorrer três países num único dia. Não a façanha de acumular bandeiras, mas a oportunidade de perceber como a cultura se infiltra nos detalhes: numa casa, numa palavra, num pão, numa taça, numa praça. A Europa revela-se menos como um conjunto de nações separadas do que como uma longa conversa, por vezes tumultuada, entre vizinhos que compartilham histórias e discordam sobre a maneira de contá-las.

Ao voltar para Colmar, lembro das cores de Eguisheim, das muralhas de Neuf-Brisach, dos canais de Freiburg, da música do Oktoberfest e da luz sobre o Reno. No caminho, houve tempo para fotografias, comentários apressados e aquela corrida discreta contra o relógio, típica das excursões de um dia.

No fim, a pergunta sobre qual país foi o mais bonito parece injusta. Cada parada tinha seu encanto — e seu limite de tempo. Entre uma e outra, a estrada completou o passeio, atravessando vinhedos, campos e pequenas cidades. Na bagagem, ficaram algumas imagens, nomes difíceis de pronunciar e a vontade de voltar com mais tempo para sentar à mesa, pedir outro vinho e deixar o dia seguir sem horário marcado.