Em Monteiro, o dia começa antes que o calor aperte. As portas de aço sobem, as vassouras correm pelas calçadas, as primeiras motos passam e as conversas começam nas esquinas. Logo aparecem os carros de quem chega de comunidades e municípios vizinhos para trabalhar, fazer compras, estudar ou resolver algum assunto. O comércio vai ganhando movimento, enquanto a estrada mantém o fluxo de quem entra e sai da cidade. É assim que a vida começa ali, sem cerimônia: gente abrindo loja, pegando a estrada, levando filho para a escola, procurando atendimento ou indo atrás do trabalho.
É nessa rotina, tão comum e tão concreta, que também se percebe o que um governo consegue entregar. Uma estrada em boas condições encurta distâncias. Água chegando regularmente muda o dia de uma casa. Internet funcionando pode ajudar um estudante, um comerciante ou uma empresa. Uma escola que prepara melhor um jovem amplia suas possibilidades. Em Monteiro, essas coisas têm tamanho de vida cotidiana. E, vistas de perto, ajudam a entender uma Paraíba que não termina na capital nem nos maiores municípios.
A eleição terminou, mas a estrada continua. O novo mandato não começa diante de uma folha em branco. Lucas Ribeiro já conhece parte da administração estadual e, ao assumir o novo mandato, encontrará uma gestão em andamento. Haverá o que preservar, o que concluir, o que corrigir e espaço para novas escolhas. A experiência acumulada pode ajudar nesse caminho, mas também torna maior a responsabilidade pelo que vier depois.
É nesse ponto que a distância entre campanha e governo aparece. Durante a disputa, as palavras precisam alcançar muita gente. Na administração, as decisões precisam alcançar a vida real. Crescimento econômico, por exemplo, pode parecer maior no discurso do que no cotidiano. Uma empresa que chega pode render uma boa manchete. O que interessa, depois, é saber se contrata gente da terra, movimenta fornecedores, traz conhecimento e abre outras portas. O resultado de uma política de desenvolvimento aparece menos no anúncio e mais nas oportunidades que ela consegue criar e sustentar.
O que se vê em Monteiro, com outras formas e outras dimensões, também aparece em Sousa, Patos, Cajazeiras, Guarabira e em tantas cidades que têm suas próprias vocações. Cada uma tem um ritmo, uma economia, uma posição no mapa e necessidades que não são exatamente iguais às da cidade vizinha. O governo estadual pode ajudar a criar condições para que essas diferenças se transformem em oportunidades. Uma estrada conservada, uma conexão que funciona, água disponível e uma escola capaz de preparar um jovem para o trabalho podem parecer assuntos modestos diante dos grandes anúncios. Para quem depende deles, não são.
O turismo traz uma questão parecida. A Paraíba tem praias, paisagens, cultura e patrimônio capazes de atrair visitantes. Mas há uma diferença entre receber turistas e transformar cidades em vitrines. Quem chega deve encontrar um lugar bem cuidado; quem mora nele também. O próximo ciclo pode exigir justamente esse equilíbrio: atrair visitantes sem perder de vista a organização das cidades, a preservação do patrimônio e a qualidade de vida de quem vive nelas.
Em algum momento, porém, as grandes palavras — crescimento, investimento, desenvolvimento — chegam à porta de casa. É quando alguém precisa de uma consulta, espera por um exame, leva o filho à escola ou volta para casa depois do trabalho. Nesse momento, a política pública deixa de ser número e ganha rosto.
Na saúde, a experiência de quem espera por atendimento diz muito, mas também é preciso reconhecer o que funciona e pode ser ampliado. Na educação, mais importante do que inaugurar uma escola é acompanhar o que acontece com o aluno depois que a porta da sala de aula se fecha. Na segurança, uma viatura pode ser necessária, mas talvez não seja suficiente. Há também investigação, inteligência, perícia e integração de informações. Em cada uma dessas áreas, o caminho parece menos o de negar o que foi feito e mais o de identificar onde os resultados podem chegar mais longe.
O crime, afinal, pode ter muitas formas. Além da violência que se vê na rua, existem redes que eventualmente envolvem empresas, patrimônios e movimentações financeiras. Os chamados crimes de colarinho branco, as fraudes e a lavagem de dinheiro exigem conhecimento especializado e investigação paciente. Fortalecer tecnologia, inteligência, perícia e integração de informações pode ampliar a capacidade de investigação. Em determinadas apurações, acompanhar o dinheiro pode ser tão importante quanto identificar quem praticou o delito.
Enquanto isso, os assuntos de sempre continuam à espera: água, saneamento, estradas, mobilidade, organização das cidades. Alguns já receberam investimentos e avançaram; outros ainda pedem atenção. Quase nunca rendem os melhores discursos, embora façam parte da vida de todos os dias. E há ainda as contas públicas, esse personagem pouco popular que raramente recebe aplausos, mas lembra aos governos que vontade e possibilidade precisam caminhar juntas.
Talvez governar seja, em grande parte, saber escolher. Há momentos em que é preciso continuar; outros em que é necessário corrigir; e alguns em que convém ter coragem para mudar. Um governo responsável não precisa tratar o passado como erro nem o futuro como promessa permanente. Pode reconhecer o que deu certo e, ao mesmo tempo, admitir que sempre haverá algo a aperfeiçoar.
A Paraíba não precisa ser reinventada a cada eleição. Precisa ser olhada por inteiro. Há uma capital com seus problemas, cidades médias com suas próprias necessidades, pequenos municípios com dificuldades particulares e regiões que não podem ser lembradas apenas quando chega uma campanha. O Estado entra em um novo ciclo levando conquistas, limitações, obras em andamento, demandas antigas e oportunidades novas. Governar será lidar com tudo isso ao mesmo tempo.
No fim, talvez seja a própria estrada uma boa imagem para esse momento. Ela não para porque uma eleição terminou. Continua recebendo quem vai trabalhar, estudar, buscar atendimento, transportar mercadorias ou simplesmente voltar para casa. A escola continua abrindo suas portas. O posto de saúde continua recebendo pacientes. O comércio continua esperando clientes. As cidades continuam crescendo, cada uma ao seu modo, e as famílias continuam fazendo planos.
É por essas coisas, tão simples na aparência e tão difíceis na prática, que um governo acaba sendo lembrado. Não apenas pelo que inaugurou, mas pelo que conseguiu fazer funcionar; não apenas pelo que prometeu, mas pelo que conseguiu entregar; não apenas pelo que mudou, mas também pela capacidade de preservar aquilo que vinha dando resultado.
A eleição passa. O governo começa. E a vida não espera.
A estrada continua.
Talvez seja essa a medida mais honesta de um mandato: olhar para o Estado sem palanque e sem torcida, mas também sem negar o que já foi construído, e perguntar o que precisa continuar, o que precisa melhorar e o que ainda falta fazer para que a Paraíba avance.
Palmarí H. de Lucena