A Estação que perdeu a bússola

Photo by Palmarí H. de Lucena
A Estação que perdeu a bússola

A Estação Ciência de João Pessoa nasceu para ser farol. Não apenas pela posição sobranceira ao Atlântico, nem pela assinatura de Oscar Niemeyer que lhe dá curvas de promessa e concreto de utopia. Nasceu para iluminar. Para oferecer à cidade um lugar em que ciência, arte e educação dialogassem com a paisagem e com as pessoas, sem pedágio comercial, sem crachá de “evento fechado”, sem a lógica do aluguel do simbólico. A Estação foi concebida como praça do futuro — e uma praça, sabe-se, não se terceiriza.

O que se vê hoje, porém, é um desvio de rota que não cabe em notas oficiais nem se resolve com cancelamentos episódicos. Quando um equipamento cultural é usado como salão polivalente de conveniências, perde-se mais do que o decoro: perde-se o sentido. Não é a mera ocorrência de eventos o problema; eventos podem ser expressão viva da cultura. O nó está na inversão de propósito. Quando a exceção vira regra, quando o calendário privado engole a vocação pública, a Estação deixa de ser laboratório de ideias e vira aluguel de cenário.

Há também a mudez dos espaços. Portas trancadas, salas vazias, programação rarefeita. O prédio, esse manifesto em concreto, não foi erguido para ser mirante solitário nem corredor de selfies. Arquitetura pública é sempre promessa coletiva: ela pede gente, convívio, pensamento em exposição. Um edifício sem pessoas é uma metáfora mal resolvida — e uma cidade sem seus equipamentos vivos é um romance interrompido na primeira página.

Alguns dirão que tudo é questão de orçamento; outros, de gestão; outros ainda, de ruído político. Pode ser. Mas nenhuma dessas desculpas absolve o essencial: o descompasso entre intenção e prática. A Estação não precisa de remendos cosméticos, mas de pacto. Um pacto claro entre poder público e sociedade sobre o que ela é — e sobre o que ela não é. Não é galpão de ocasião. Não é vitrine de improvisos. Não é concessão de última hora. É política cultural em estado puro.

Uma cidade se reconhece no modo como trata seus símbolos. Quando os converte em utilidades descartáveis, revela sua própria precariedade; quando os honra, anuncia civilização. João Pessoa já mostrou que sabe cuidar do que é seu — de praias a tradições, de centros históricos a afetos. Falta agora aplicar essa mesma ética ao monumento que deveria ensinar o futuro. Ciência e cultura não são acessórios; são a própria infraestrutura do amanhã.

Não se pede heroísmo administrativo, apenas coerência. Um plano público, transparente e continuado de programação; parcerias com universidades e escolas; residência artística; exposições científicas permanentes; laboratórios abertos; ciclos de cinema e debates; ocupação diária que faça do prédio um organismo e não um palco ocasional. Em suma: a Estação precisa de gente antes de eventos, de ideias antes de ingressos, de projeto antes de pauta.

O mar que a circunda não se cansa de lembrar: o horizonte é disciplina. A Estação, se quiser voltar a ser farol, precisa reencontrar sua bússola. E a bússola é simples — chama-se finalidade pública. Sem ela, a arquitetura é só forma. Com ela, é cidade.

Palmarí H. de Lucena