A esquerda, a direita e a arte de ter razão

A esquerda, a direita e a arte de ter razão

A política brasileira possui uma vocação especial para transformar diferenças legítimas de opinião em disputas sobre quem teria descoberto a fórmula definitiva para explicar o país. De um lado está a esquerda; do outro, a direita. Entre as duas existe um território movimentado de centro, centro-esquerda, centro-direita e outras combinações. O mapa parece simples, mas basta aproximar o zoom para descobrir que as fronteiras são menos precisas do que os discursos eleitorais fazem parecer.

A esquerda brasileira reúne correntes diferentes, com posições próprias sobre economia, desigualdade, políticas sociais, trabalho, meio ambiente e papel do Estado. A direita também abriga tendências distintas, do liberalismo econômico ao conservadorismo, passando por diferentes concepções de segurança, costumes, instituições e intervenção estatal. Reduzir qualquer desses campos a uma única doutrina seria tão razoável quanto descrever uma cidade inteira pela opinião de um único morador.

A dificuldade começa quando a campanha eleitoral transforma essa diversidade em duas caricaturas. Cada lado tende a apresentar suas próprias diferenças como prova de riqueza intelectual e as diferenças do adversário como sinal de confusão. Explicar um país complexo dá trabalho, enquanto explicar o adversário por meia dúzia de rótulos cabe tranquilamente em um discurso de televisão.

A vida real, entretanto, não respeita etiquetas políticas com a mesma disciplina dos debates. Uma pessoa pode defender políticas de redução da pobreza e, simultaneamente, preocupar-se com equilíbrio fiscal. Outra pode valorizar a liberdade econômica e reconhecer a necessidade de determinadas políticas públicas. Alguém pode ser conservador em questões culturais e defender reformas institucionais, assim como desejar um Estado mais atuante em determinadas áreas e desconfiar de sua expansão em outras. Isso não é necessariamente incoerência, mas resultado de viver em um mundo onde os problemas não chegam separados por cores partidárias.

A política gosta de caixas porque elas facilitam a organização. O eleitor identifica a etiqueta e, muitas vezes, recebe junto uma opinião pronta sobre o conteúdo. Se uma proposta pertence ao campo adversário, seus defeitos aparecem imediatamente; se pertence ao próprio campo, suas virtudes surgem com a mesma velocidade. É uma forma eficiente de economizar tempo, embora não seja necessariamente a melhor maneira de pensar.

A esquerda tem razões legítimas para se preocupar com desigualdade, pobreza, acesso a serviços públicos e proteção social. A direita tem razões legítimas para enfatizar liberdade individual, segurança, responsabilidade fiscal, propriedade, estabilidade institucional e limites ao poder do Estado. Nenhuma dessas preocupações deveria ser tratada como propriedade particular de uma corrente. O debate empobrece quando uma delas pretende apresentar-se como proprietária exclusiva do interesse público.

Um país precisa lidar ao mesmo tempo com liberdade e igualdade, crescimento e distribuição, iniciativa privada e serviços públicos, segurança e direitos, estabilidade e mudança. Essas questões raramente oferecem respostas perfeitas. O problema é que a política eleitoral prefere soluções perfeitas, mais fáceis de prometer do que de executar.

É nesse momento que a realidade interrompe o discurso. Governar exige orçamento, instituições, negociação, escolhas e consequências. Uma proposta pode parecer impecável em teoria e encontrar dificuldades quando precisa ser transformada em política pública. Isso não significa que as ideias sejam inúteis. Significa apenas que a realidade possui o péssimo hábito de cobrar a conta das teorias.

Nenhuma corrente está protegida dessa experiência. A esquerda pode descobrir que uma política social precisa de sustentabilidade financeira para sobreviver. A direita pode descobrir que determinadas necessidades sociais não desaparecem simplesmente porque o Estado decidiu gastar menos. Em ambos os casos, a realidade pode exigir revisão. Rever uma posição diante de novos fatos não deveria ser considerado uma derrota, mas uma possibilidade normal em uma sociedade que pretenda aprender.

Talvez uma das maiores confusões da política esteja na maneira como tratamos a coerência. Às vezes, ela é confundida com a obrigação de repetir eternamente a mesma opinião. Mas coerência não precisa significar imobilidade. Uma pessoa pode manter princípios e modificar os meios pelos quais pretende alcançá-los, ou reconhecer que uma previsão estava errada sem abandonar aquilo em que acreditava.

Há ainda uma disputa pelas grandes palavras da política. Liberdade, igualdade, justiça, ordem, desenvolvimento, mudança, tradição e democracia aparecem em discursos de diferentes correntes. Nenhum grupo possui escritura dessas palavras. O que muda é o significado atribuído a elas e a prioridade que cada corrente estabelece. Muitas discussões políticas são, portanto, disputas sobre propostas e também sobre quem define o significado das palavras usadas para defendê-las.

Talvez seja por isso que o pragmatismo tenha se tornado uma palavra tão útil. Ele aparece quando as convicções encontram a necessidade de governar. Negociar, corrigir, adaptar e estabelecer prioridades fazem parte da política democrática. O pragmatismo não pertence à esquerda nem à direita: é uma ferramenta que pode ser usada por qualquer governo. A questão é saber quando a adaptação serve aos princípios e quando os princípios passam a ser adaptados para justificar qualquer decisão. Isso exige observar cada caso, cada proposta e cada consequência.

O eleitor recebe uma tarefa pouco confortável: separar a proposta de sua embalagem, o argumento da propaganda e a crítica legítima da caricatura. É mais trabalhoso do que escolher simplesmente um lado e deixar que o restante seja explicado pela torcida.

Talvez seja justamente aí que esteja uma forma mais saudável de imparcialidade. Não significa imaginar que todas as ideias tenham o mesmo valor ou que todas as posições sejam igualmente corretas. Significa aplicar o mesmo critério de avaliação a quem está de um lado e a quem está do outro. Uma boa proposta não se torna ruim porque veio do adversário, assim como uma proposta ruim não se torna boa porque veio do próprio campo.

A esquerda e a direita continuarão existindo porque representam prioridades e visões diferentes sobre a sociedade. Isso não é uma falha da democracia. O problema surge quando a diferença política é convertida em julgamento moral permanente e o adversário deixa de ser alguém com outra visão para tornar-se uma espécie de ameaça abstrata.

O Brasil é maior do que suas etiquetas. Há brasileiros preocupados com igualdade que também valorizam liberdade. Há brasileiros preocupados com segurança que também defendem direitos. Há quem queira menos Estado em algumas áreas e mais Estado em outras. Há pessoas com convicções firmes sobre determinados assuntos e dúvidas legítimas sobre outros. Essa mistura não é um defeito nacional, mas consequência de uma sociedade formada por milhões de indivíduos que não receberam o mesmo manual de instruções.

No fim, esquerda e direita talvez sejam melhor entendidas como instrumentos para organizar o debate do que como caixas capazes de conter integralmente uma pessoa ou um país. Cada campo percebe determinados problemas com maior nitidez e pode subestimar outros. O eleitor não precisa entregar sua capacidade de julgamento a nenhum deles.

A democracia não exige que todos concordem. Exige algo mais difícil: que seja possível discordar sem transformar a discordância em uma guerra moral permanente. Talvez a maturidade política comece quando deixamos de perguntar qual lado possui razão em tudo e passamos a perguntar, questão por questão, qual argumento resiste melhor aos fatos.

É uma solução pouco emocionante para quem gosta de grandes batalhas ideológicas. Mas tem uma vantagem considerável: depois que termina o horário eleitoral, alguém ainda precisa viver no país.

Palmarí H. de Lucena