A diplomacia dos insultos

A diplomacia dos insultos

Houve um tempo em que a diplomacia era reconhecida pela discrição. Os conflitos entre nações eram, muitas vezes, intensos; os interesses, inconciliáveis; as disputas, permanentes. Ainda assim, preservava-se um patrimônio invisível: a linguagem do respeito institucional. Não por gentileza, mas por inteligência política. Os governantes compreendiam que representavam Estados, e os Estados sobrevivem aos governantes.

Essa tradição parece ceder lugar a uma nova estética do poder. Em vez da palavra que aproxima, prospera a frase que divide. Em vez do argumento, a ofensa. Em vez da prudência, o espetáculo. A diplomacia, que antes buscava construir pontes, passou a disputar audiência. O insulto tornou-se instrumento de comunicação política, e a repercussão imediata passou a valer mais do que os efeitos duradouros.

Não se trata de um fenômeno restrito a um país ou a uma corrente ideológica. Nas democracias contemporâneas, líderes de diferentes matizes recorreram, em maior ou menor grau, à retórica da desqualificação pessoal e institucional. Presidentes passaram a dirigir ataques não apenas a adversários políticos, mas também às estruturas permanentes do Estado. Tribunais, parlamentos, sistemas eleitorais, órgãos de imprensa e até instituições internacionais converteram-se em alvos frequentes de discursos destinados muito mais à mobilização de apoiadores do que ao convencimento de interlocutores.

Os exemplos são conhecidos. Donald Trump transformou o confronto verbal em uma de suas marcas políticas. Dirigiu críticas contundentes a líderes aliados, questionou a legitimidade das eleições presidenciais de 2020 e lançou sucessivas acusações contra autoridades eleitorais e membros do Judiciário quando suas decisões contrariaram seus interesses. Na América do Sul, Javier Milei elevou o tom das divergências ao dirigir ofensas pessoais ao presidente brasileiro e críticas públicas a instituições nacionais, transferindo para o plano diplomático uma linguagem típica da disputa partidária.

Mais importante do que identificar protagonistas, porém, é compreender o significado desse processo. Democracias vivem do conflito de ideias. O dissenso é uma virtude, não um defeito. Governos existem para ser criticados. Decisões judiciais podem ser debatidas. Parlamentos erram. Sistemas eleitorais devem ser continuamente aperfeiçoados. Nada disso enfraquece a democracia; ao contrário, constitui sua essência.

O risco surge quando a crítica abandona o terreno dos argumentos para ingressar no da permanente deslegitimação. Há uma diferença decisiva entre discordar de uma decisão judicial e convencer a sociedade de que todo o Judiciário perdeu legitimidade; entre questionar aspectos de uma eleição e afirmar, sem provas consistentes, que o próprio sistema democrático é fraudulento; entre criticar um governante e negar validade às instituições que tornam possível sua substituição pelo voto.

As instituições democráticas possuem uma característica singular: elas dependem não apenas de normas jurídicas, mas de confiança pública. Tribunais não dispõem de exércitos para impor suas decisões. Autoridades eleitorais não sustentam sua legitimidade pela força. Constituições não se defendem sozinhas. Seu verdadeiro fundamento repousa na convicção coletiva de que as regras do jogo merecem ser respeitadas, mesmo quando produzem resultados desagradáveis.

É justamente essa confiança que se fragiliza quando o insulto se converte em método político. A repetição sistemática de acusações infundadas, a ridicularização das instituições e a transformação de todo desacordo em prova de conspiração produzem um desgaste silencioso. Não derrubam imediatamente uma democracia, mas corroem, pouco a pouco, os alicerces sobre os quais ela se mantém.

A história ensina que as democracias raramente sucumbem apenas pela força. Antes disso, costumam sofrer um lento processo de erosão de sua cultura institucional. O respeito às regras vai sendo substituído pela fidelidade às pessoas; a autoridade das leis cede espaço ao carisma dos líderes; a confiança nas instituições dissolve-se na crença de que apenas um indivíduo representa legitimamente a vontade popular. Quando esse deslocamento se consolida, o Estado deixa de ser impessoal para tornar-se extensão de projetos pessoais de poder.

No plano internacional, as consequências são igualmente preocupantes. Quando presidentes utilizam a linguagem do insulto para tratar de governos estrangeiros, não atingem apenas seus ocupantes circunstanciais. Ofendem instituições que representam povos inteiros e enfraquecem a própria lógica da convivência entre Estados soberanos. Divergências diplomáticas são inevitáveis; desrespeito institucional nunca deveria ser.

O Brasil, assim como qualquer democracia constitucional, não exige reverência de outras nações. Exige apenas aquilo que oferece: respeito à sua soberania, às suas instituições e ao direito de resolver seus conflitos segundo os mecanismos previstos por sua Constituição. Esse princípio vale igualmente para todas as democracias, independentemente de seus governos ou orientações ideológicas.

No fim, a grande questão não diz respeito a este ou àquele presidente. Governantes pertencem ao tempo da política; instituições pertencem ao tempo da História. Mandatos terminam, discursos envelhecem, popularidades oscilam. Permanecem as Constituições, os tribunais, os parlamentos, as eleições e os princípios que permitem às sociedades renovar o poder sem romper a ordem democrática.

Talvez a verdadeira grandeza de um líder não esteja na capacidade de humilhar adversários, acumular manchetes ou transformar o conflito em espetáculo. Ela se revela quando compreende que as palavras de um chefe de Estado nunca pertencem apenas a quem as pronuncia. Elas representam uma nação, moldam a confiança dos cidadãos e deixam marcas que frequentemente sobrevivem ao próprio mandato.

A civilização sempre avançou quando o argumento prevaleceu sobre o insulto, quando o direito falou mais alto que a força e quando as instituições foram respeitadas acima das conveniências de ocasião. É essa a diferença entre o governante que apenas ocupa o poder e o estadista que ajuda a preservar a democracia para as gerações futuras.

Palmarí H. de Lucena