Por trás das barricadas francesas, uma pergunta atravessa as democracias liberais: até que ponto um Estado pode exigir sacrifícios de sua população sem comprometer as condições materiais e políticas que sustentam a legitimidade do poder?
Há momentos em que uma nação parece descobrir, de repente, que já não se reconhece no espelho. As instituições continuam de pé, os edifícios públicos preservam sua imponência, os governantes seguem pronunciando discursos em nome da estabilidade e os mercados continuam a medir o futuro em índices e expectativas. Mas, nas ruas, alguma coisa se rompeu. O que antes era descontentamento transforma-se em indignação; a indignação, em confronto; e o confronto passa a ser tratado como uma ameaça à ordem que o próprio sistema já não consegue justificar plenamente.
A França conhece a força simbólica dessas rupturas. Não apenas porque Paris guarda a memória de revoluções que alteraram o curso da história, mas porque a tradição republicana francesa se construiu sobre uma promessa exigente: a de que a liberdade política não pode permanecer inteiramente separada da igualdade e da fraternidade. Quando a desigualdade se aprofunda, os serviços públicos se deterioram e a representação política perde credibilidade, essa promessa deixa de ser uma abstração filosófica. Torna-se uma cobrança.
É nesse ponto que a crise francesa ultrapassa suas fronteiras. O que está em jogo não é apenas a capacidade de um governo de conter manifestações, recompor maiorias parlamentares ou recuperar popularidade. É a crescente dificuldade das democracias liberais de conciliar três imperativos que, em tempos de prosperidade, parecem compatíveis: equilíbrio fiscal, proteção social e segurança pública. Quando os recursos escasseiam e a confiança se deteriora, esses imperativos entram em colisão. E quase sempre é a população mais vulnerável que primeiro sente o impacto.
A crise começa a adquirir uma dimensão mais grave quando o sacrifício deixa de ser percebido como temporário e passa a ser experimentado como destino. Cortes na saúde, na educação, nos transportes, na assistência social e nos serviços locais não são apenas números em planilhas orçamentárias. São consultas adiadas, escolas sem recursos, deslocamentos mais caros, famílias submetidas a uma insegurança que invade o cotidiano. O Estado pode chamar isso de ajuste, racionalização ou responsabilidade fiscal. Para quem depende desses serviços, a experiência tem outro nome: abandono.
Não se trata de afirmar que toda contenção de despesas seja ilegítima ou que os governos possam ignorar indefinidamente suas restrições financeiras. O problema está na distribuição dos custos e na qualidade da justificativa política. Uma sociedade tolera sacrifícios quando acredita que eles são necessários, proporcionais e compartilhados. Quando percebe que a austeridade é exigida dos mesmos grupos enquanto os benefícios da recuperação econômica permanecem concentrados, a disciplina orçamentária perde sua aparência de neutralidade. O orçamento passa a ser lido como um retrato das prioridades morais do poder.
É nesse ambiente que a democracia se torna vulnerável a uma espécie de esgotamento silencioso. O cidadão continua votando, mas deixa de acreditar que a alternância de governos altere substancialmente suas condições de vida. Continua formalmente representado, mas sente que as decisões fundamentais são tomadas longe de seu alcance. Continua dispondo de direitos, mas encontra dificuldades crescentes para exercê-los na prática. A democracia permanece em funcionamento; o que se deteriora é a convicção de que ela ainda seja capaz de produzir respostas.
O perigo dessa erosão é que ela raramente se apresenta, de início, como uma rejeição explícita à democracia. Aparece como impaciência com os procedimentos, desprezo pelo Parlamento, desconfiança da imprensa, hostilidade aos tribunais e fascínio por dirigentes que prometem governar sem os obstáculos da negociação. A lentidão democrática, antes reconhecida como o preço da pluralidade, passa a ser denunciada como fraqueza. A complexidade dos problemas é convertida em argumento para soluções autoritárias.
É nesse intervalo que o endurecimento da segurança pública encontra sua justificativa mais sedutora. Diante de manifestações violentas, depredações, saques ou confrontos com as forças policiais, o Estado tem o dever de proteger a população e fazer cumprir a lei. Nenhuma reivindicação social concede licença irrestrita para destruir, agredir ou intimidar. A legitimidade do protesto não elimina a responsabilidade individual, assim como a responsabilidade individual não invalida as causas que levaram milhares de pessoas às ruas.
A dificuldade começa quando a resposta à violência deixa de ser proporcional e se transforma em projeto de governo. Medidas excepcionais tornam-se permanentes; poderes ampliados de vigilância são incorporados à rotina; restrições ao protesto são apresentadas como simples requisitos administrativos; e a contestação política passa a ser observada sob a suspeita generalizada de ameaça à segurança nacional. A linguagem da ordem, nesse caso, deixa de proteger o espaço democrático e começa a estreitá-lo.
O Estado de Direito não se distingue pela ausência de força, mas pela submissão da força a limites. A polícia deve agir, mas sua atuação precisa ser controlada. O governo deve proteger a sociedade, mas não pode confundir a preservação de sua autoridade com a preservação da democracia. A segurança pública é uma condição da liberdade; não pode converter-se em justificativa para esvaziá-la.
Há, além disso, uma contradição que merece atenção. Governos pressionados por crises fiscais podem reduzir a presença do Estado em áreas essenciais à proteção social e, simultaneamente, ampliar sua presença coercitiva nas ruas. Menos recursos para prevenir a exclusão, mais recursos para administrar suas manifestações visíveis. Menos capacidade de responder às causas, mais disposição para conter os efeitos. Essa combinação não é inevitável, tampouco descreve automaticamente toda política de austeridade ou de segurança. Mas, quando ocorre, revela uma inversão preocupante das prioridades públicas: o Estado parece encolher diante das necessidades e crescer diante da resistência.
A consequência pode ser um círculo vicioso. A deterioração dos serviços amplia a insegurança material; a insegurança alimenta o ressentimento; o ressentimento favorece protestos e radicalização; a radicalização oferece argumentos para medidas mais duras; e essas medidas, quando indiscriminadas, aprofundam a desconfiança. A repressão pode dispersar uma multidão, mas não substitui uma política de habitação, não reduz o preço dos alimentos, não recupera a confiança em um hospital público nem devolve perspectivas a uma geração que se sente condenada à precariedade.
É nesse sentido que a França interessa às demais democracias liberais. Não porque todos os países estejam destinados a repetir sua trajetória, mas porque muitos enfrentam versões distintas do mesmo dilema. Na Europa, a pressão fiscal, o custo de vida, as disputas migratórias e o avanço de partidos nacionalistas desafiam os consensos do pós-guerra. Nos Estados Unidos, a polarização política, a desigualdade e a desconfiança institucional tornam cada conflito uma disputa sobre a própria legitimidade do sistema. Em outras democracias, inclusive no Brasil, a combinação de serviços públicos insuficientes, insegurança cotidiana, ressentimento social e discursos de autoridade pode produzir tensões semelhantes, embora em contextos históricos e institucionais muito diferentes.
O que aproxima esses cenários não é uma identidade entre países, mas uma fragilidade compartilhada: a distância crescente entre os direitos prometidos e as condições necessárias para exercê-los. Uma democracia pode garantir formalmente a liberdade de expressão, mas essa liberdade perde densidade quando a participação política se torna incapaz de influenciar decisões relevantes. Pode assegurar a igualdade perante a lei, mas sua legitimidade é abalada quando a desigualdade de recursos determina quem consegue defender seus interesses. Pode celebrar eleições regulares, mas não deve ignorar o fato de que a confiança pública também depende de resultados concretos, transparência e responsabilidade.
A ascensão da extrema direita precisa ser compreendida dentro desse quadro, sem reducionismos. Ela se alimenta de medos reais, de experiências de abandono e da percepção de que as elites políticas perderam contato com a vida comum. Seu êxito, porém, não significa que disponha de respostas adequadas para os problemas que denuncia. Muitas vezes, a promessa de restaurar a soberania nacional convive com a simplificação deliberada das causas econômicas, com a fabricação de inimigos internos e com a disposição de enfraquecer os controles institucionais que limitam o poder. A frustração social é legítima; sua conversão em licença para excluir grupos, restringir direitos ou concentrar autoridade não é.
Também seria um erro imaginar que a defesa da democracia possa ser reduzida à defesa do governo de turno. Instituições democráticas não existem para proteger dirigentes contra toda forma de contestação. Existem para organizar o conflito, limitar o poder e permitir que a sociedade altere seus rumos sem recorrer à violência. Quando o governo trata toda oposição como irresponsabilidade e quando setores da oposição tratam qualquer resultado eleitoral desfavorável como fraude ou usurpação, o espaço comum se estreita. A política deixa de ser disputa entre adversários e passa a ser confronto entre inimigos que já não reconhecem a legitimidade uns dos outros.
A saída, portanto, não está em escolher entre a permissividade diante da violência e a repressão indiscriminada; tampouco entre a austeridade cega e a promessa irresponsável de que todos os problemas podem ser resolvidos sem escolhas difíceis. Está em reconstruir a legitimidade das decisões públicas. Isso exige explicar os limites fiscais sem transformar a pobreza em variável de ajuste permanente; preservar serviços essenciais; distribuir os custos das crises de maneira defensável; investigar abusos policiais; proteger o direito ao protesto pacífico; e submeter medidas de segurança a controles democráticos efetivos.
Exige, sobretudo, reconhecer que a estabilidade não é um fim independente da sociedade que deveria estabilizar. Um país pode apresentar indicadores financeiros mais favoráveis e, ainda assim, atravessar uma crise política profunda. Pode reduzir o número de manifestações sem reduzir a indignação que as alimenta. Pode recuperar a aparência de normalidade sem recuperar a confiança. A paz pública é necessária, mas a paz democrática requer algo mais: a percepção de que as instituições não estão apenas administrando a população, e sim respondendo a ela.
Talvez seja essa a lição mais desconfortável das crises contemporâneas. As democracias não se enfraquecem apenas quando seus adversários atacam as instituições. Também se enfraquecem quando os próprios governos deixam de perceber que a legitimidade institucional precisa ser continuamente renovada por meio de direitos efetivos, serviços dignos e participação política real.
A França não precisa ser transformada em presságio universal, nem seus conflitos devem ser convertidos em espetáculo para consumo de quem observa de longe. Mas as imagens de suas ruas oferecem uma advertência que não convém desprezar: quando a proteção social recua e a força coercitiva avança, o Estado pode até recuperar o controle imediato do espaço público, mas corre o risco de perder algo mais difícil de restaurar — a confiança de que sua autoridade existe para servir à sociedade, e não para se defender dela.
As barricadas, afinal, não são apenas obstáculos físicos. Às vezes, são a expressão visível de barreiras menos evidentes: entre governantes e governados, entre o direito escrito e o direito vivido, entre a prosperidade anunciada e a insegurança cotidiana.
A democracia não fracassa necessariamente quando as ruas se enchem. Pode começar a fracassar quando já não sabe escutar o que as enche. E o Estado não demonstra sua força apenas ao dispersar uma multidão. Demonstra-a, sobretudo, quando consegue impedir que a desesperança se torne a única linguagem que resta aos cidadãos.
É nessa diferença — entre impor a ordem e construir legitimidade — que se decide uma parte importante do futuro das democracias liberais. Porque a liberdade não se sustenta apenas pela força das instituições. Sustenta-se também pela experiência cotidiana de que vale a pena preservá-las.
Palmarí H. de Lucena