A Democracia Precisa de Testemunhas

A Democracia Precisa de Testemunhas

Há eleições que escolhem governos. Outras acabam por revelar o estado de uma democracia. A eleição presidencial mexicana de 1994 pertence a essa segunda categoria. Mais do que decidir quem ocuparia a Presidência da República, ela colocava em prova uma questão mais profunda: qualquer que fosse o resultado, os cidadãos estariam dispostos a reconhecê-lo como legítimo?

Naquele momento, o México vivia uma transição política delicada. Décadas de estabilidade institucional conviviam com crescentes demandas por abertura democrática, maior competitividade eleitoral e fortalecimento da confiança pública. A violência política daquele ano apenas ampliava a percepção de que o desafio não consistia apenas em organizar uma eleição tecnicamente correta, mas em assegurar que seu resultado pudesse ser aceito como expressão legítima da vontade popular.

Foi nesse contexto que participei, como gestor de um projeto das Nações Unidas de apoio à observação eleitoral, responsável pela coordenação de sua implementação. A supervisão técnica da iniciativa era exercida por Dong Nguyen Huu, da Unidade de Assistência Eleitoral das Nações Unidas. Nossas responsabilidades eram distintas, mas complementares: enquanto a gestão assegurava a execução das atividades em campo, a supervisão técnica preservava o rigor metodológico e a observância dos princípios internacionais que orientavam a missão.

Na época, eu acreditava estar trabalhando em um projeto de cooperação internacional voltado ao fortalecimento das capacidades institucionais de um país em transição democrática. Apenas mais tarde compreendi que a experiência me conduzia a uma questão muito mais ampla. A observação eleitoral não tratava apenas de procedimentos, calendários ou metodologias. Seu verdadeiro objeto era algo menos visível e infinitamente mais difícil de construir: a confiança.

Essa percepção alterou profundamente minha forma de compreender as eleições. A maior parte das análises concentra-se nos candidatos, nos partidos e nos resultados. Para quem acompanha de perto um processo eleitoral, porém, a pergunta decisiva é outra: por que uma sociedade acredita que a vontade expressa nas urnas corresponde, de fato, à vontade de seus cidadãos?

Essa pergunta ultrapassa fronteiras e épocas. Ela diz respeito ao México de 1994, mas também às democracias contemporâneas, frequentemente confrontadas por polarização política, desinformação e crescente desconfiança nas instituições. A tecnologia transformou a maneira como votamos e como nos informamos; não alterou, entretanto, o fundamento sobre o qual repousa a legitimidade democrática.

Uma eleição produz um governo. A confiança produz legitimidade.

A diferença parece sutil, mas dela depende a estabilidade de qualquer ordem democrática. Procedimentos podem ser impecáveis, sistemas de votação podem ser seguros e autoridades eleitorais podem agir com absoluta correção. Ainda assim, se a sociedade deixar de acreditar na integridade das regras que organizam a disputa, o resultado dificilmente será suficiente para restaurar a confiança perdida.

Foi essa constatação — simples apenas na aparência — que transformou uma missão internacional em uma reflexão permanente. Desde então, sempre que acompanho o debate sobre eleições, volto mentalmente àquela pergunta formulada, ainda que de maneiras diferentes, durante os meses em que vivi no México: o que faz uma sociedade confiar em sua própria democracia?

A resposta começou a surgir muito antes que eu encontrasse palavras para formulá-la. Ela estava presente nas reuniões com autoridades eleitorais, nas conversas com representantes de partidos políticos, no trabalho das organizações da sociedade civil e, sobretudo, na expectativa silenciosa de milhões de cidadãos que aguardavam o dia da votação. Aos poucos, tornou-se evidente que todos participavam de uma mesma eleição, mas nem todos depositavam nela o mesmo grau de confiança.

Foi então que compreendi que a observação eleitoral não existe para produzir confiança. Sua função é mais modesta — e, justamente por isso, mais importante. Ela cria condições para que a confiança possa ser construída pelos próprios cidadãos, a partir de informações verificáveis, procedimentos transparentes e avaliações independentes. Nenhuma missão internacional pode substituir esse processo. A confiança não se importa, não se exporta e não se decreta. Ela nasce da experiência coletiva de que as regras são conhecidas, aplicadas com imparcialidade e respeitadas por todos.

Essa percepção ajuda a desfazer um equívoco recorrente. A observação eleitoral não tem por finalidade legitimar governos nem arbitrar disputas políticas. Seu compromisso é com a integridade do processo. Observadores não escolhem vencedores; observam procedimentos. Não intervêm na soberania dos Estados; contribuem para fortalecer a credibilidade de suas instituições. Seu papel consiste em oferecer um olhar independente sobre o funcionamento das regras que tornam possível a competição democrática.

Ao longo das últimas décadas, essa compreensão foi sendo refinada pela prática internacional. A assistência eleitoral das Nações Unidas evoluiu de missões voltadas principalmente para contextos de transição ou reconstrução institucional para iniciativas orientadas ao fortalecimento duradouro da governança democrática. A experiência acumulada demonstrou que eleições confiáveis dependem menos da presença de observadores do que da existência de instituições independentes, autoridades eleitorais competentes, participação cidadã e mecanismos eficazes de prestação de contas.

Essa evolução também encontrou respaldo na reflexão de pensadores que se dedicaram a compreender a democracia para além de seus procedimentos formais. Alexis de Tocqueville percebeu, ainda no século XIX, que a vitalidade das instituições repousava nos hábitos cívicos e na confiança cultivada pelos cidadãos. Mais de um século depois, Robert Dahl demonstraria que eleições livres constituem apenas um dos elementos de uma ordem democrática, inseparáveis da liberdade de expressão, do pluralismo político, do acesso à informação e da possibilidade de fiscalização pública.

Essas ideias não eram abstrações acadêmicas. No México, elas adquiriam uma dimensão concreta. Cada reunião, cada decisão administrativa e cada medida destinada a ampliar a transparência contribuía para responder à mesma pergunta: de que maneira uma sociedade reconhece que uma eleição pertence aos cidadãos e não aos interesses circunstanciais de governos ou partidos?

Essa compreensão seria posteriormente consolidada em instrumentos internacionais, entre eles a Declaração de Princípios para a Observação Internacional de Eleições, adotada em 2005. O documento não estabelece um modelo único de democracia nem pretende uniformizar sistemas eleitorais. Seu mérito está em afirmar princípios comuns — independência, imparcialidade, transparência, respeito aos direitos fundamentais e observação profissional — que permitem fortalecer a confiança pública sem limitar a soberania dos Estados.

Ao recordar aquela experiência, percebo que a maior contribuição da observação eleitoral talvez não resida na produção de relatórios ou recomendações. Seu legado mais duradouro consiste em recordar que a legitimidade democrática não nasce apenas da existência de regras, mas da confiança compartilhada de que essas regras serão respeitadas quando realmente importarem.

Se a confiança é o fundamento invisível da legitimidade democrática, sua fragilidade também explica por que eleições tecnicamente corretas nem sempre produzem estabilidade política. Nas últimas décadas, essa constatação tornou-se evidente em diferentes regiões do mundo. Em sociedades profundamente polarizadas, a disputa desloca-se do campo das preferências políticas para o da credibilidade das próprias instituições. O debate já não se limita a quem venceu; passa a questionar se as regras merecem confiança.

Essa mudança talvez represente um dos maiores desafios das democracias contemporâneas. Nunca houve tanto acesso à informação e, ao mesmo tempo, tamanha dificuldade para distinguir fatos de narrativas. A velocidade das plataformas digitais ampliou extraordinariamente a circulação de informações, mas também reduziu o tempo disponível para sua verificação. Em poucas horas, uma suspeita pode alcançar milhões de pessoas; a demonstração dos fatos, quase sempre mais lenta, raramente percorre o mesmo caminho.

Nesse ambiente, a observação eleitoral adquire um significado que ultrapassa sua dimensão técnica. Ela deixa de ser percebida apenas como um mecanismo de acompanhamento das eleições para afirmar um princípio mais amplo: a confiança pública depende da possibilidade de que os processos sejam observados, compreendidos e avaliados de maneira independente. Transparência não é um gesto de desconfiança em relação às instituições; é uma demonstração de confiança na capacidade que elas têm de prestar contas à sociedade.

Por essa razão, a observação eleitoral deixou de ser uma atividade restrita a organismos internacionais. Em muitos países, universidades, organizações da sociedade civil, associações profissionais e redes de voluntários passaram a desempenhar papel crescente na proteção da integridade eleitoral. Essa evolução representa uma mudança significativa. A defesa da democracia deixa de ser responsabilidade exclusiva do Estado e transforma-se em um compromisso compartilhado pelos próprios cidadãos.

Essa talvez seja a forma mais madura de participação democrática. Não aquela que se manifesta apenas no dia da votação, mas a que acompanha, observa e protege as instituições que tornam o voto significativo. Democracias sólidas não dependem apenas de boas leis ou de autoridades competentes. Dependem de cidadãos dispostos a reconhecer que a fiscalização independente fortalece, e não enfraquece, a legitimidade do processo eleitoral.

Quando recordo o México de 1994, percebo que aquela experiência antecipava questões que hoje desafiam democracias em todos os continentes. Na época, imaginávamos estar contribuindo para o fortalecimento de um processo eleitoral específico. Com o tempo, compreendi que a verdadeira lição era outra. O desafio permanente das democracias não consiste apenas em organizar eleições livres, mas em preservar a confiança coletiva de que elas continuarão pertencendo aos cidadãos.

Talvez seja essa a razão pela qual a democracia permanece sempre inacabada. Cada geração recebe instituições construídas por seus antecessores, mas precisa renovar diariamente a confiança que lhes confere legitimidade. Nenhum sistema eleitoral, por mais sofisticado que seja, consegue substituir esse patrimônio invisível. Ele depende da conduta das instituições, da responsabilidade dos atores políticos e da disposição da sociedade para reconhecer que as regras comuns valem mais do que as vantagens de uma vitória circunstancial.

No fim, compreendi que a observação eleitoral nunca tratou apenas de eleições. Tratou da confiança. E a confiança, mais do que qualquer norma jurídica ou inovação tecnológica, continua sendo o recurso mais valioso de uma democracia.

É por isso que toda democracia precisa de testemunhas.

Não testemunhas do vencedor, mas do processo.

Não para decidir quem governa, mas para que todos possam reconhecer, com fundamento, que a vontade dos cidadãos foi livremente expressa e fielmente respeitada.

Porque a democracia não sobrevive apenas quando contamos os votos. Ela sobrevive quando continuamos capazes de confiar na forma como eles foram contados.

Palmarí H. de Lucena