A democracia depois dos 70

A democracia depois dos 70

Todo domingo de eleição tem uma coreografia própria. Nos corredores das escolas, eleitores procuram sua seção, conferem o título e aguardam a vez de votar. Entre eles, os mais velhos chegam em outro compasso: uma bengala toca o chão, uma mão busca o corrimão, alguém pergunta pelo elevador, enquanto uma cadeira é aproximada. Há quem chegue acompanhado ou precise de mais tempo para alcançar a cabine. Gestos discretos que quase desaparecem na paisagem, mas revelam um eleitorado que envelhece.

Depois dos 70 anos, o voto é facultativo. Nas eleições municipais de 2024, 66,43% dos eleitores entre 70 e 74 anos compareceram às seções. Na faixa de 75 a 79 anos, foram 49,55%. Menos da metade dos eleitores dessa faixa etária esteve diante de uma urna. A palavra “abstenção”, porém, não conta o domingo que veio antes. Em algum lugar, um título de eleitor ficou dentro de uma gaveta. Em outro, a decisão de votar foi tomada ainda durante o café. Para alguns, não comparecer foi uma escolha. A estatística conhece o resultado; não conhece a manhã.

Isso ganha outra proporção quando se olha para o tamanho desse eleitorado. Em 2024, mais de 15 milhões de eleitores brasileiros tinham 70 anos ou mais. Cerca de 4,8 milhões já haviam passado dos 79. O Censo de 2022 registrou mais de 32 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais. O envelhecimento, que costuma aparecer em gráficos e pirâmides etárias, também está nos corredores das escolas eleitorais, nas filas e nos títulos conferidos duas vezes.

A eleição tem uma curiosa capacidade de revelar o país sem precisar explicá-lo. Há quem conheça o número da seção de memória e quem precise conferir o título eleitoral duas vezes. Há quem chegue à cabine acompanhado e quem cumpra sozinho o percurso até a urna. Há quem vote rapidamente e quem precise de alguns minutos a mais.

Enquanto isso, o eleitorado envelhece levando consigo uma agenda que não cabe apenas na seção eleitoral. Saúde aparece nas receitas guardadas na bolsa. Aposentadoria aparece na conta do mês. Transporte aparece no ponto de ônibus. Moradia e cuidados de longa duração aparecem na rotina de quem envelheceu e de quem, muitas vezes, passou a cuidar de alguém que envelheceu.

É aí que a escolha de não votar deixa de ser apenas um gesto individual. Não porque cada ausência determine uma política pública, nem porque todo eleitor que deixa de votar esteja abrindo mão de suas reivindicações. Mas porque, quando uma parcela numerosa e crescente da população participa menos das eleições, suas necessidades podem chegar às campanhas com menos presença, aos debates com menos insistência e às urnas com menos votos. O efeito não aparece no momento em que alguém decide ficar em casa. Pode aparecer muito depois, quando se discutem orçamento, transporte, atendimento de saúde, previdência, moradia ou serviços de cuidado.

Há uma espécie de ironia silenciosa nisso. A dispensa da obrigação de votar é uma liberdade. Mas uma liberdade pode produzir efeitos que ultrapassam quem a exerce. O indivíduo não comparece à seção naquele domingo; a cidade, o estado, o país continuam tomando decisões que também chegarão à sua porta.

E há uma diferença entre não ser obrigado a votar e deixar de participar da vida política. O voto facultativo retira uma obrigação eleitoral, não retira direitos, interesses ou necessidades. O idoso continua sendo usuário do sistema de saúde, passageiro do transporte público, beneficiário da Previdência, morador de uma cidade que precisa funcionar. A vida cotidiana não passa a ser facultativa aos 70.

A pergunta “quantos foram?” é indispensável para a apuração, mas insuficiente para descrever a participação política de uma população que cresce. Talvez seja preciso perguntar também quem ficou de fora — e o que suas ausências significam quando uma sociedade envelhece.

No fim da tarde, as escolas fecham os portões. Os mesários guardam seus materiais. As urnas eletrônicas já não têm diante delas a expectativa de quem ainda vai votar. Pouco depois, os resultados começam a ocupar as telas, e milhões de escolhas cabem em números: votos válidos, brancos, nulos, abstenções.

Nenhuma dessas categorias registra o caminho percorrido até a seção. Tampouco registra aquilo que pode vir depois: a política pública que chega, a que demora, a que não chega, a prioridade que muda de lugar no orçamento. Entre uma eleição e outra, as consequências raramente têm a forma de uma urna. Elas aparecem na consulta que demora, no ônibus que deixa de passar, na calçada que continua difícil, no serviço de cuidado que não existe.

No dia seguinte, os idosos retornam às farmácias, aos ônibus, aos mercados, às consultas, às praças. Continuam vivendo sob as decisões tomadas pelos governos e pelos representantes eleitos. O calendário eleitoral termina; a vida pública, não.

O Brasil está envelhecendo, e o eleitorado envelhece com ele. O que hoje parece uma questão de participação de uma faixa etária será, cada vez mais, parte da própria paisagem eleitoral do país. Depois dos 70, votar é uma escolha. Viver com as consequências das escolhas coletivas, não.

Palmarí H. de Lucena