A Civilização que Não Sabe Parar

A Civilização que Não Sabe Parar

Há dias em que a cidade parece ter sido construída para impedir que o homem fique sozinho consigo mesmo. O dia começa antes que o corpo esteja inteiramente acordado: uma luz acende no telefone, uma mensagem chega, alguma notícia pede atenção, alguém espera uma resposta. Ainda na cama, antes de recordar o sonho da noite, já estamos diante do movimento do mundo. E o mundo, com sua habitual falta de cerimônia, parece nos informar que não há tempo a perder.

Está aí uma das pequenas contradições do nosso tempo. A tecnologia, que prometia devolver algumas horas ao homem, acabou ocupando muitas delas. Estamos disponíveis no trabalho, em casa, durante as refeições e até nos momentos que deveriam pertencer ao descanso. O telefone nos acompanha como um companheiro permanente, mas também como uma cobrança silenciosa. Estar conectado passou a parecer uma obrigação, mesmo quando ninguém pediu que estivéssemos disponíveis o tempo todo.

Giovanni Papini teria reconhecido esse homem. Em Gog, seu personagem atravessa o mundo em busca de respostas para perguntas que parecem não ter resposta definitiva. Conversa com políticos, artistas, cientistas, religiosos e homens de poder, como quem procura em cada um deles uma explicação capaz de esclarecer suas próprias dúvidas. No fim, percebe que é possível ouvir muitas opiniões, conhecer muitas ideias e, ainda assim, continuar sem saber exatamente o que procura.

O mundo de hoje aperfeiçoou essa procura. Há sempre alguém disposto a ensinar como ganhar dinheiro, cuidar do corpo, trabalhar melhor, escolher um relacionamento ou alcançar a felicidade. Para cada dificuldade aparece um método, uma técnica ou uma promessa. Nunca tivemos tantos instrumentos para organizar a rotina e, ainda assim, continuamos sem saber muito bem como usar o tempo que ganhamos.

Também nunca tivemos tanta informação. Podemos acompanhar acontecimentos que ocorrem do outro lado do planeta, consultar livros em segundos e descobrir quase tudo sobre quase qualquer assunto. Mas ter mais informação não significa necessariamente entender melhor. Podemos conhecer milhares de fatos e continuar sem saber o que fazer diante de uma perda, de uma solidão ou simplesmente de uma tarde em que nada acontece.

A mesma inquietação aparece no consumo. Compramos coisas que ainda funcionam porque outras parecem mais novas, mais bonitas ou mais interessantes. O telefone, o carro, a roupa e até uma viagem passaram a carregar promessas que ultrapassam sua utilidade. Muitas vezes não compramos apenas um objeto; compramos a expectativa de que ele vai melhorar alguma coisa no nosso dia a dia.

Essa expectativa costuma durar menos do que imaginamos. Depois de algum tempo, aquilo que parecia extraordinário torna-se comum e outra novidade ocupa seu lugar. Não há nada de errado em comprar, desejar ou apreciar coisas novas. O problema aparece quando começamos a acreditar que a próxima compra vai resolver um descontentamento que continua ali depois que a novidade perde o brilho.

Algo semelhante acontece com a necessidade de aprovação. As redes sociais transformaram a opinião dos outros em números que podem ser observados diariamente. Curtidas, seguidores, comentários e visualizações passaram a funcionar como sinais de reconhecimento. Queremos mostrar quem somos, mas também queremos saber como somos vistos.

A vida privada também mudou. Uma viagem pode ser vivida, fotografada e imediatamente compartilhada; um jantar pode ser interrompido para registrar a mesa; uma paisagem pode ser contemplada apenas depois que encontramos o melhor ângulo para fotografá-la. Não há nada de errado em guardar lembranças, mas existe uma diferença entre registrar a vida e passar a viver para registrá-la.

É também por isso que o silêncio se tornou tão difícil. Uma caminhada sem destino parece perda de tempo, uma tarde sem compromissos parece desperdício e uma conversa sem objetivo parece estranha. Quando ficamos sozinhos, procuramos rapidamente uma tela, uma mensagem ou alguma notícia. Aos poucos, fomos nos acostumando a preencher cada intervalo do dia, como se alguns minutos sem atividade fossem tempo perdido.

Não seria justo culpar a tecnologia por tudo isso. A ciência tornou a vida mais longa e mais segura, aproximou pessoas, facilitou o trabalho e abriu possibilidades que pareciam impossíveis há poucas décadas. O problema surge quando esperamos que essas conquistas também decidam como devemos usar nosso tempo. Uma máquina pode facilitar uma tarefa, mas não pode escolher aquilo que merece nossa atenção.

Uma das maiores dificuldades do homem moderno está em escolher entre tantas coisas que disputam sua atenção. Há notícias demais, opiniões demais, produtos demais, oportunidades demais e estímulos demais. Tudo parece importante por alguns minutos e, logo depois, é substituído por alguma novidade. Vivemos em uma espécie de fila interminável de acontecimentos, sempre olhando para o próximo sem terminar de compreender o anterior.

No final do dia, depois que o movimento diminui, chega aquele momento em que a pessoa fica em casa sem saber muito bem o que fazer com alguns minutos livres. A televisão está desligada, o jantar já terminou e o telefone continua sobre a mesa. Basta estender a mão para abrir uma mensagem, conferir uma notícia ou procurar qualquer coisa que preencha o silêncio.

É nesse momento que Gog continua sendo uma referência tão atual. O personagem de Papini percorre o mundo atrás de respostas e encontra, em cada parada, novas razões para desconfiar das respostas fáceis. O homem de hoje dispõe de telas, aplicativos, buscadores e milhares de especialistas à distância de um toque. Mudaram as ferramentas e os lugares dessa procura, mas continuamos passando boa parte do dia atrás de alguma resposta.

É possível começar de maneira menos grandiosa. Deixar o telefone em outro cômodo durante uma refeição, caminhar até a padaria sem tirar uma fotografia, sentar diante de uma janela enquanto a chuva cai sem procurar imediatamente alguma coisa para assistir. Conversar com alguém sem interromper a conversa para conferir uma notificação. São gestos pequenos, quase insignificantes, mas devolvem ao dia alguns minutos que não precisam produzir nada.

Lá fora, os carros continuam passando. Um vizinho fecha o portão, uma criança atravessa a calçada correndo, alguém chama um cachorro pelo nome. Dentro de casa, a xícara esfria devagar sobre a mesa. O telefone permanece virado para baixo, sem emitir nenhuma luz.

Por alguns minutos, nada acontece. Não há mensagem para responder, notícia para conferir, compra para fazer ou fotografia para publicar. Há apenas uma tarde comum chegando ao fim.

Quando finalmente o telefone acende, a mão não se move imediatamente. A mensagem pode esperar mais alguns minutos. A cidade continuará funcionando sem aquela resposta. E, pela primeira vez naquele dia, isso parece perfeitamente normal.

Palmarí H. de Lucena