Há cidades que se tornam conhecidas por aquilo que produzem. Outras, por aquilo que celebram. Campina Grande pertence a uma categoria mais rara: tornou-se conhecida pelas duas coisas.
Em junho, quando as bandeirolas começam a colorir o horizonte da Borborema e o som da sanfona se espalha pelas ruas, a cidade assume a forma pela qual o Brasil a reconhece. Durante semanas, o Maior São João do Mundo transforma avenidas em arraiais, converte a memória rural nordestina em espetáculo urbano e atrai uma multidão que parece crescer a cada ano. Para quem chega de fora, é natural imaginar que a identidade de Campina Grande se resume à força dessa celebração.
Mas basta permanecer um pouco mais para perceber que a cidade conta outra história.
O mesmo território que produz uma das maiores festas populares do país abriga uma tradição igualmente notável de empreendedorismo, inovação e trabalho. Não se trata de uma coincidência. As duas vocações nasceram da mesma raiz histórica.
Localizada longe dos grandes portos, distante dos centros de decisão política e sujeita às incertezas climáticas do semiárido, Campina Grande aprendeu cedo que seu destino dependeria menos da geografia do que da iniciativa humana. Antes de ser uma cidade de festas, foi uma cidade de comerciantes. Antes dos palcos, houve as feiras. Antes do turismo, houve a circulação de mercadorias, de ideias e de oportunidades.
Essa cultura de movimento moldou o caráter da cidade.
Por isso, talvez seja inadequado falar em contraste entre o São João e os grandes empreendedores campinenses. Ambos pertencem à mesma tradição. Ambos expressam a mesma disposição para reunir pessoas em torno de um projeto coletivo. Ambos exigem imaginação, organização e confiança no futuro.
Poucos personagens simbolizam melhor esse processo do que José Carlos da Silva Júnior e José Neiva Freire.
Em áreas distintas, os dois ajudaram a demonstrar que o interior nordestino poderia produzir empresas competitivas, inovadoras e duradouras. José Carlos transformou negócios locais em organizações de alcance regional e nacional, contribuindo para fortalecer a presença econômica da Paraíba em setores estratégicos. Sua trajetória representou uma recusa silenciosa ao velho pressuposto de que o sucesso empresarial dependia da proximidade com os grandes centros do Sudeste.
José Neiva Freire percorreu um caminho diferente, mas movido pela mesma convicção. Quando fundou a Grafset, na década de 1970, apostou em tecnologia e profissionalização num setor que ainda engatinhava na região. O empreendimento cresceu, diversificou-se e tornou-se referência no mercado gráfico e editorial. Mais importante, porém, foi o significado dessa trajetória. Ao imprimir livros, revistas, materiais didáticos e projetos editoriais, a Grafset participou de algo maior que a atividade econômica: ajudou a ampliar a circulação do conhecimento.
Existe uma afinidade profunda entre essas histórias.
José Carlos trabalhou com a circulação de produtos, serviços e informação. Neiva trabalhou com a circulação de ideias. Um ajudou a expandir mercados. O outro ajudou a expandir horizontes. Em ambos os casos, o elemento decisivo não foi o capital inicial nem a localização geográfica, mas a capacidade de enxergar possibilidades onde outros viam limitações.
A mesma lógica aparece, sob outra forma, no próprio São João.
Frequentemente tratado apenas como festa, o evento é também uma sofisticada realização coletiva. Atrás das quadrilhas, dos shows e das fogueiras existe uma engrenagem complexa de planejamento, investimento, logística e coordenação social. A celebração mobiliza recursos, gera empregos, movimenta cadeias produtivas e projeta a imagem da cidade muito além das fronteiras paraibanas. Seu êxito depende das mesmas qualidades que sustentam qualquer empreendimento bem-sucedido: visão de longo prazo, capacidade organizacional e confiança compartilhada.
Talvez por isso Campina Grande desafie classificações simples.
Ela não é apenas uma cidade universitária, embora suas instituições de ensino tenham transformado a região. Não é apenas um polo tecnológico, embora tenha conquistado reconhecimento nessa área. Não é apenas um centro comercial, embora o comércio esteja na origem de sua prosperidade. Tampouco é apenas a capital do forró durante o mês de junho.
Campina Grande é o resultado da convivência entre todas essas identidades.
Num país que frequentemente opõe tradição e modernidade, cultura e economia, memória e inovação, a experiência campinense sugere outra possibilidade. Em vez de escolher entre passado e futuro, a cidade aprendeu a fazer dos dois uma mesma força.
Quando as luzes do Parque do Povo se apagam e as últimas bandeirolas são recolhidas, algo permanece. Permanecem as empresas, as escolas, as editoras, os laboratórios, as oficinas e os negócios que continuam funcionando muito depois do encerramento da festa. Permanece, sobretudo, uma maneira particular de olhar o mundo: a convicção de que celebrar e construir não são atividades opostas.
No fundo, o que distingue Campina Grande não é apenas a capacidade de realizar uma grande festa nem de produzir grandes empreendedores. É a rara habilidade de transformar imaginação em realidade coletiva. A sanfona e a prensa gráfica, a fogueira e a fábrica, o arraial e a sala de reuniões pertencem à mesma paisagem humana. Juntos, contam a história de uma cidade que fez da criatividade uma forma de prosperidade e da memória uma ponte para o futuro.
Palmarí H. de Lucena