A cidade onde o dia começa

A cidade onde o dia começa

Há uma curiosa tendência de definir cidades por seus superlativos. A maior, a mais rica, a mais violenta, a mais turística. João Pessoa costuma escapar dessa lógica. Quando é lembrada nacionalmente, quase sempre aparece associada a um dado geográfico: ali o sol nasce primeiro. É uma informação correta, mas insuficiente. A geografia explica onde o dia começa; não explica por que uma cidade continua fascinando aqueles que nela vivem.

Durante muito tempo, João Pessoa pareceu cultivar uma ambição rara entre as capitais brasileiras: crescer sem romper completamente com sua escala humana. Enquanto outras cidades confundiam desenvolvimento com verticalização indiscriminada, ela preservava corredores verdes, bairros onde ainda era possível caminhar e uma relação cotidiana com o litoral que dispensava solenidade. O mar nunca foi um cenário excepcional. Era apenas parte da vida.

Essa relação começa a mudar.

Como em tantas cidades médias brasileiras, a expansão imobiliária alterou a paisagem em poucas décadas. Novos edifícios redefiniram o horizonte; o automóvel passou a determinar o ritmo dos deslocamentos; avenidas antes suficientes tornaram-se corredores congestionados. A modernização trouxe benefícios inegáveis, mas também uma consequência menos evidente: a cidade começou a disputar consigo mesma a atenção de seus habitantes.

Hoje, a experiência mais comum de João Pessoa talvez não aconteça diante do oceano, mas dentro de um carro parado na Avenida Epitácio Pessoa, esperando o próximo semáforo abrir. É curioso que uma cidade celebrada por sua proximidade com a natureza seja vivida, diariamente, através da mesma gramática urbana compartilhada por tantas outras capitais brasileiras: filas, aplicativos de navegação, entregas, pressa.

Ainda assim, algo resiste.

Basta caminhar alguns minutos fora do itinerário habitual para perceber que a cidade continua oferecendo uma qualidade de tempo cada vez mais rara. Não se trata apenas da brisa que atravessa a orla ou da sombra produzida pelas mangueiras antigas. Trata-se da possibilidade de interrupção. Uma conversa inesperada numa banca de jornal. Um vendedor de água de coco que reconhece clientes antigos. Um pescador recolhendo suas redes enquanto corredores dividem a calçada com ciclistas e famílias. Pequenas cenas que dificilmente entram nos indicadores econômicos, mas ajudam a explicar por que algumas cidades permanecem habitáveis mesmo quando crescem.

Existe também uma dimensão menos visível. João Pessoa foi construída entre rios, manguezais e o Atlântico. Durante séculos, essas águas organizaram seu comércio, sua ocupação e sua memória. Hoje permanecem presentes, embora frequentemente relegadas à periferia da atenção pública. Como acontece em muitas cidades costeiras, a natureza continua estruturando o território mesmo quando a imaginação urbana prefere voltar-se para o concreto.

Talvez toda cidade possua uma versão oficial e outra íntima. A oficial aparece nos planos diretores, nos investimentos imobiliários, nas campanhas de turismo. A íntima é formada por hábitos quase imperceptíveis: o caminho escolhido para evitar o trânsito, a padaria onde o balconista conhece o pedido antes que ele seja feito, o banco de praça ocupado sempre pelas mesmas pessoas ao cair da tarde.

É nessa cidade menos visível que João Pessoa parece encontrar sua identidade.

Não porque tenha resistido às transformações das últimas décadas. Nenhuma cidade resiste. Mas porque ainda preserva espaços onde o cotidiano não foi completamente absorvido pela velocidade. Em uma época em que tantas capitais disputam o futuro pela altura de seus edifícios ou pelo tamanho de seus investimentos, talvez seu maior patrimônio continue sendo outro: a capacidade de oferecer, mesmo por alguns minutos, a sensação de que viver não precisa significar apenas chegar mais rápido ao próximo compromisso.

Talvez seja essa a verdadeira vantagem de uma cidade onde o dia começa primeiro. Não o privilégio de ver o sol antes dos demais, mas a oportunidade — cada vez mais rara — de perceber que um novo dia ainda pode começar devagar.

Palmarí H. de Lucena

*Foto do autor.