A Cidade nas Dobras da Serra

A Cidade nas Dobras da Serra

As montanhas estavam ali antes de tudo. Antes das igrejas, dos engenhos, dos casarões e dos jardins. Bananeiras veio depois, acomodando-se entre as encostas como uma sucessão de pequenos acordos entre a paisagem e aqueles que decidiram habitá-la.

Chega-se à serra por estradas que sobem devagar entre cortes de pedra, manchas de mata e curvas que revelam a paisagem aos poucos. Em certas manhãs, a névoa repousa nos vales como água parada. Então surgem os telhados antigos, as torres da igreja, os quintais escondidos atrás dos muros baixos e as casas que se acomodam ao relevo com a naturalidade de quem sempre pertenceu ao lugar.

A impressão é de que a cidade não foi construída de uma só vez, mas depositada lentamente sobre a encosta. Primeiro uma varanda voltada para o nascente, depois uma escadaria vencendo a inclinação do terreno, mais adiante uma praça aberta onde a geografia permitiu. Como os sedimentos de um rio antigo, cada geração acrescentou uma camada sem apagar completamente a anterior.

Durante muito tempo, Bananeiras conservou essa rara harmonia entre paisagem e presença humana. As casas não procuravam dominar a serra. Limitavam-se a habitá-la. A arquitetura aceitava seu papel secundário diante das montanhas, do vento e da luz variável das estações.

Nas noites frias, quando a névoa começava a descer pelas encostas e o sino da matriz marcava o ritmo das horas, a cidade parecia reunir-se em torno de seus próprios rituais. Havia as conversas demoradas nas calçadas, as serenatas atravessando a praça e as sessões do Cine Excelsior, cuja luz escapava da cabine de projeção para atravessar a escuridão da sala como um farol doméstico. As pessoas não apenas viviam na cidade; compartilhavam uma mesma geografia afetiva.

Sabiam onde haviam acontecido as histórias. Em qual esquina começara um namoro. Em qual varanda uma família observara três gerações de invernos. Em qual banco da praça alguém ouvira pela primeira vez notícias de um mundo que existia para além das montanhas.

Mas as paisagens também viajam no tempo.

Nos últimos anos, um novo horizonte começou a surgir sobre as encostas. Condomínios avançaram pelas colinas. Ruas geometricamente traçadas ocuparam terrenos que durante décadas obedeceram apenas ao relevo. Portarias monumentais passaram a anunciar a chegada a espaços que parecem existir segundo uma lógica própria, paralela à da cidade histórica.

Dentro deles surgiram casas de outra escala.

Algumas lembram residências dos subúrbios norte-americanos. Outras evocam referências mediterrâneas, alpinas ou californianas. Há fachadas revestidas de pedra, telhados sobrepostos, colunas, arcos e elementos que parecem ter desembarcado de geografias diferentes para encontrar abrigo no mesmo endereço.

Depois de muitos anos vivendo nos Estados Unidos, acostumei-me a ouvir uma palavra curiosa: McMansion. Era usada para descrever casas que procuravam expressar prosperidade por meio da escala e da combinação de referências arquitetônicas vindas de diferentes lugares. Com o tempo, o termo tornou-se menos uma definição imobiliária e mais uma forma de reconhecer uma paisagem que começava a repetir-se de estado em estado, quase indiferente à geografia ao redor.

Talvez por isso a expressão volte à memória ao observar algumas das novas construções que surgem nas encostas de Bananeiras. Não pelo tamanho das casas, mas pela sensação de familiaridade.

Ainda assim, seria injusto reduzir a história apenas ao contraste. A prosperidade recente trouxe movimento para uma cidade que durante décadas viveu em ritmo mais lento.

Vista desse modo, Bananeiras parece feita de camadas.

Em junho, essa convivência torna-se ainda mais visível. A cidade parece vestir outra pele sem deixar de ser ela mesma. Bandeirolas atravessam as ruas, fachadas recebem novas cores, o cheiro de milho assado mistura-se ao frio da serra e a música espalha-se pelas praças e ladeiras.

Enquanto isso, as boninas florescem. Surgem junto às cercas, nos quintais antigos e nas encostas onde o olhar raramente se detém por muito tempo.

Ao final da viagem, quando as montanhas desaparecem pelo retrovisor e a estrada volta a descer em direção ao agreste, percebe-se que a serra continua fazendo aquilo que sempre fez: acolher novas histórias sem apagar completamente as antigas. As casas mudam, as gerações sucedem-se, as festas retornam a cada inverno e a paisagem segue acumulando marcas do tempo.

Entre o concreto e as boninas, entre a memória e a renovação, Bananeiras permanece sendo, acima de tudo, uma cidade que aprendeu a viver em companhia da serra. E é talvez dessa convivência silenciosa, construída ao longo de muitas gerações, que nasce o encanto que ainda hoje acompanha quem passa por suas ruas e leva consigo a lembrança de suas montanhas.

Palmarí H. de Lucena