José Saramago, em Ensaio sobre a cegueira, não escreveu sobre olhos que falham, mas sobre consciências que desistem. No romance, a perda da visão não escurece o mundo — embranquece-o. Tudo continua iluminado, mas ninguém mais distingue contornos, limites ou responsabilidades. É uma cegueira que não nasce da ausência de luz, mas da saturação dela: ver demais e compreender de menos.
A metáfora é incômoda porque reconhecível.
No Brasil, não falta palavra à política. Sobra. O que escasseia é visão. Não a fisiológica, mas a moral — aquela que permite distinguir urgência de encenação, prioridade de oportunismo, interesse público de conveniência privada. É aqui que se instala o que poderíamos chamar de cegueira da liderança.
Ela não se revela em grandes colapsos, mas em pequenos atrasos. Começa na normalização do provisório, que vira permanente. Depois, na tolerância com o descaso, que vira método. Aos poucos, a omissão passa a vestir o figurino da prudência, e o medo de decidir ganha nome de responsabilidade institucional. A liderança cega não grita: administra.
E administra, muitas vezes, como quem gere ruínas sem admitir o desabamento.
O Congresso funciona. As sessões ocorrem. Os discursos se sucedem. As votações registram números e os relatórios acumulam páginas. Mas há uma distância crescente entre o que se delibera e o que se vive. O país real — o da escola que falta, da saúde que demora, da cidade que endurece — entra apenas em forma de estatística. Transforma-se em gráfico antes de ser escuta.
Saramago nos ensina que sociedades não colapsam quando perdem regras, mas quando perdem pudor. É quando já não se estranha o inaceitável e já não constrange o inadequado que a decadência deixa de ser exceção e vira rotina. Na política, a cegueira se revela quando o discurso se torna autossuficiente e a realidade passa a ser acessória.
Não é falta de informação que paralisa. É excesso de adaptação.
Quando a liderança se habitua à crise, a crise deixa de ser prioridade e passa a ser paisagem. Quando o atraso vira normal, a urgência vira exagero. Quando tudo pode esperar, o tempo político já não acompanha o tempo humano. E o país, esse, envelhece sozinho.
Há, em Saramago, uma personagem que ainda enxerga. Não salva o mundo. Mas testemunha sua ruína. A sua grandeza não está no poder, mas na lucidez. Falta isso às lideranças contemporâneas: menos cálculo e mais percepção. Menos blindagem e mais contato. Menos retórica e mais reconhecimento do real.
A cegueira da liderança é a mais perigosa porque não escandaliza. Ela não interrompe o sistema; deixa-o funcionar em vazio. Faz tudo seguir adiante, mesmo quando nada avança. A democracia, então, não cai — desgasta-se. Não explode — corrói.
Não se trata de pedir heroísmo, mas de exigir visão. Visão como responsabilidade, não como marketing; como consciência, não como slogan. O país não carece de líderes que falem melhor — carece de líderes que vejam mais. Que reconheçam pessoas onde hoje se veem números, que projetem futuro em que hoje há apenas cálculo, que devolvam sentido ao que foi reduzido a rito.
A cegueira não começa nos olhos, mas quando a liderança desvia o olhar. Um país pode até continuar andando sob o comando de quem não vê, mas caminha como quem tateia no escuro: avança sem direção, repete passos e chama movimento de progresso. E, assim, segue — sem saber para onde.
Por Palmarí H. de Lucena
Nota do autor:
Este artigo inspira-se livremente em Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago, como matriz literária para uma reflexão institucional sobre a crise de percepção pública e responsabilidade política, sem referência a partidos, pessoas ou disputas eleitorais específicas. A abordagem é simbólica e analítica, não alegórica nem acusatória, buscando observar a vida pública como fenômeno cultural, moral e civilizatório — e não como arena de disputa ideológica.