Há casas que se rendem ao tempo — e há outras onde o tempo se ajoelha diante da palavra. Na Rua Duque de Caxias, número 25, em João Pessoa, ergue-se uma dessas moradas raras: a Academia Paraibana de Letras. Seu casarão antigo, de janelas largas e alma vigilante, parece erguido não de tijolos, mas de vozes. São as vozes que o vento repete nos corredores — Epitácio Pessoa, José Américo de Almeida, Coriolano de Medeiros, Horácio de Almeida, Celso Mariz, Ariano Suassuna, Celso Furtado, Augusto dos Anjos e Castro Pinto — todos ainda vivos na música silenciosa das estantes e na respiração das páginas.
Fundada em 14 de setembro de 1941, quando o país tateava entre guerras e esperanças, a Academia nasceu do sonho de escritores que acreditavam na eternidade da língua portuguesa. Não bastava escrever livros — era preciso edificar um abrigo para a palavra, um santuário laico da cultura, um lugar onde o idioma pudesse florescer e resistir. Coriolano, seu primeiro presidente, não fundou apenas uma instituição: erigiu um destino. Deu à Paraíba um território simbólico onde a língua é pátria e a literatura, cidadania.
Cada cadeira é uma sentinela da memória. Cada novo imortal traz o sopro dos que vieram antes, renovando o pacto invisível com a língua — essa matéria viva, mestiça e luminosa, que guarda o passado e projeta o futuro. O fardão verde, mais que indumentária, é um voto de fidelidade ao idioma, um gesto de reverência à cultura e um compromisso com o amanhã. A cada posse, o português reencontra seu coração tropical; o verbo ganha novos tons, e o Brasil, novas vozes. O lema que vibra nas paredes — Ad Immortalitatem — não é apenas promessa: é o ofício diário de preservar o que nos une como nação falante e sonhadora.
Tombado pelo patrimônio histórico, o casarão abriga não apenas livros, mas destinos. No Memorial Augusto dos Anjos, repousa a sombra luminosa do poeta que fez da morte um cântico. E nas tardes do Chá Acadêmico, quando a cidade abranda o ritmo e o aroma do café se mistura às conversas, a literatura reencontra seu dom essencial — o da convivência. Porque a língua, mais do que um código, é comunhão: une gerações, reconcilia diferenças e dá forma àquilo que chamamos de civilização.
E foi assim que, no dia 23 de outubro, a Academia abriu suas portas para o país, como anfitriã do Congresso Nacional de Academias de Letras. Foi a Paraíba que acolheu o Brasil das palavras. De norte a sul, de leste a oeste, vieram escritores, pensadores e sonhadores para celebrar o idioma — essa casa invisível onde todos habitamos. Por alguns dias, João Pessoa tornou-se o coração da língua portuguesa, pulsando em uníssono com a cultura brasileira, e o velho casarão da Duque de Caxias, seu altar.
Porque a Academia Paraibana de Letras é mais que uma casa de intelectuais: é guardiã da língua, fiadora da memória e farol da cultura. Em tempos de pressa e desatenção, ela recorda que a palavra é o último reduto da lucidez. Quando a noite desce sobre o centro histórico e as luzes se apagam, persiste um rumor no escuro — o das páginas que se movem sozinhas, o dos versos que respiram, o das ideias que não se deixam calar.
É ali, entre o silêncio e a lembrança, que a língua portuguesa renasce — vibrante, mestiça e eterna.
Porque, na Paraíba, até o tempo aprendeu a conjugar o verbo resistir — e a brincar de eternidade com as palavras.
João Pessoa, 2025
Por Palmarí H. de Lucena