A Canção que Nunca se Calou

A Canção que Nunca se Calou

Foi uma noite bem novaiorquina: fria, transparente e, ao mesmo tempo, cheia de calor humano. Estávamos em um pequeno apartamento em Manhattan, convidados por Joanne Pottlitzer, diretora do Theater of Latin America, que celebrava o êxito de Arena Conta Zumbi, de Augusto Boal. Entre risos, poesia e sonhos de um mundo melhor, a anfitriã apresentou-nos um convidado especial — Víctor Jara.

Ele chegou com a humildade dos que não precisam anunciar-se. Um sorriso breve, uma serenidade quase tímida. Trazia no olhar a luz dos que acreditam que a arte é uma forma de justiça. Falava do Chile, de Allende, da gente simples e das canções que nasciam do sofrimento e da fé no futuro. Cantou baixinho, dedilhando o violão como quem acaricia uma lembrança, e por um instante o tempo pareceu suspenso.

Antes de partir, nos presenteou com um disco — e nele, a nossa canção favorita: “Te Recuerdo Amanda.”
Naquela voz havia algo que unia o amor e a luta, a chuva e a fábrica, Amanda e Manuel. Tempos depois, veio a notícia que gelou o coração: Víctor Jara fora preso, torturado e assassinado. O homem que cantava a paz tombava sob o peso da violência que denunciava.
Guardei o disco como se fosse uma relíquia, não apenas de um cantor, mas de um instante de humanidade partilhada.

Anos depois, lendo uma crônica da escritora paraibana Ana Adelaide, encontrei a menção a um vinil de Jara que ela havia emprestado e nunca recuperara. Senti a mesma saudade, a mesma dor silenciosa. Fiz uma cópia do disco que ele me dera e a enviei a ela. Foi um gesto simples, mas pleno de sentido — como acender uma vela diante da memória. O tempo passou, e nunca falamos sobre isso. Até que, em uma feira de livros, nossos olhares se cruzaram. Um sorriso breve bastou. Como se a música tivesse dito tudo o que as palavras não souberam dizer.

Mais tarde, a canção reapareceu, desta vez em Moçambique.
Estávamos hospedados na casa de amigos, e o clima era tenso. Uma discussão conjugal sobre o livro Quem mexeu no meu queijo? transformara o jantar em trincheira. Ficamos em silêncio, espectadores de uma batalha doméstica. A relação deles se dissolvia aos poucos, como areia sob a chuva. Decidimos nos recolher, exaustos.

De madrugada, as vozes soavam mais brandas. Propusemos um armistício: um safári no Parque Nacional Kruger. Eles aceitaram.
Na estrada, o silêncio era denso até que alguém sugeriu música. Havia apenas um CD esquecido no aparelho. Um chiado longo e, de repente, aquela voz antiga, densa e terna:
“Te recuerda Amanda, la calle mojada…”
Durante duas horas, a canção repetia-se, ferida e intacta, como o eco de um amor que se recusa a morrer. A estrada avançava, e o passado voltava inteiro — a noite em Manhattan, o disco, a promessa de que a arte pode vencer o esquecimento.

Ao chegar a Malelane, Africa do Sul, o destino parecia ter preparado um reencontro. Sob uma árvore frondosa, seis mulheres e um homem, vestidos como trabalhadores de restaurante, cantavam uma canção de boas-vindas no estilo do grupo Ladysmith Black Mambazo.
O casal, tocado pela harmonia das vozes africanas, sorriu pela primeira vez. Talvez tivessem encontrado, naquele instante, a saída de seu próprio labirinto.

Mais tarde, às margens do Rio Crocodilo, vimos uma manada de elefantes descendo o escarpamento. Os menores caminhavam junto às mães, todos em busca de água. Diante daquela simplicidade, compreendemos que a vida segue entre encontros e partidas, entre o silêncio e o canto.

Partimos ao fim do fim de semana. Eles haviam decidido se separar — talvez até com a serenidade temporária de quem entende que o amor também conhece seus ciclos.
Ficamos nós, três pessoas e uma canção.

Enquanto o carro desaparecia pela estrada vermelha, a voz de Víctor Jara ainda pairava no ar:
“Te recuerdo Amanda…”

E eu soube, então, que há músicas que não pertencem a um tempo, mas a todos os tempos — porque nascem daquilo que o medo jamais conseguirá calar.

Por Palmarí H. de Lucena