A civilização gosta de imaginar a si mesma como uma linha ascendente. Dos impérios antigos às democracias modernas, contamos a história humana como uma lenta domesticação da violência. Construímos tribunais, convenções internacionais, códigos militares, tratados de direitos humanos. Repetimos a palavra “progresso” como se ela fosse uma garantia moral.
Mas basta uma guerra para percebermos quão fina é essa camada.
Os romanos transformaram o Rapto das Sabinas em mito fundador. Pintores renascentistas converteram o desespero feminino em grandiosidade estética. Historiadores celebraram a coragem dos conquistadores. Durante séculos, a violência foi narrada do ponto de vista dos vencedores; o sofrimento das mulheres permaneceu como detalhe secundário na construção gloriosa de Roma.
A história raramente admite seus próprios eufemismos. O que chamamos de “rapto” muitas vezes foi estupro. O que chamamos de “conquista” frequentemente significou humilhação sistemática dos derrotados. O corpo humano — sobretudo o corpo feminino, mas não apenas ele — sempre foi tratado como território simbólico de poder.
Gostamos de acreditar que deixamos isso para trás. Contudo, as guerras modernas continuam revelando o contrário.
Da Bósnia a Ruanda, do Congo ao Sudão, da prisão de Abu Ghraib aos conflitos no Oriente Médio, reaparece a mesma lógica ancestral: degradar sexualmente o inimigo para destruir não apenas indivíduos, mas a dignidade coletiva de um povo inteiro.
Nos últimos meses, relatos vindos de Gaza e da Cisjordânia trouxeram novamente esse tema ao centro do debate internacional. Ex-prisioneiros palestinos, organizações humanitárias e investigações jornalísticas descreveram acusações de nudez forçada, espancamentos em partes íntimas, ameaças de estupro e humilhações sexuais cometidas durante detenções e interrogatórios conduzidos por soldados e agentes de segurança israelenses.
Mulheres palestinas relataram revistas invasivas diante de homens armados. Homens descreveram agressões físicas acompanhadas de insultos sexuais. Menores de idade afirmaram ter sido ameaçados e aterrorizados durante interrogatórios. Autoridades israelenses rejeitam a ideia de uma política institucional de abuso sexual e argumentam que denúncias específicas devem ser analisadas individualmente. Ainda assim, a repetição dos relatos e a dificuldade histórica de responsabilização levantam perguntas inquietantes sobre impunidade em contextos de guerra.
Foi precisamente para impedir que a guerra transformasse seres humanos em objetos descartáveis que surgiram as Convenções de Genebra e o moderno direito internacional humanitário. Após os horrores da Segunda Guerra Mundial, o mundo tentou estabelecer um princípio elementar: mesmo em guerra, existem limites morais e jurídicos que nenhum Estado deveria ultrapassar.
Os julgamentos de Nuremberg Trials representaram uma ruptura histórica porque afirmaram que soldados, oficiais e líderes políticos poderiam ser responsabilizados individualmente por crimes cometidos em nome do Estado. Embora o estupro não tenha ocupado posição central nos processos de Nuremberg como ocorreria décadas depois nos tribunais para Ruanda e ex-Iugoslávia, aqueles julgamentos estabeleceram a base jurídica para reconhecer atrocidades contra civis como crimes de guerra e crimes contra a humanidade.
Mais tarde, tribunais internacionais ampliariam esse entendimento. O Tribunal Penal Internacional para Ruanda reconheceu o estupro como instrumento de genocídio. O tribunal para a ex-Iugoslávia definiu a violência sexual sistemática como crime contra a humanidade. A mensagem jurídica parecia clara: o corpo humano não poderia mais ser tratado como espólio militar.
E, no entanto, a história insiste em regressar.
O mais perturbador não é apenas a violência em si. É a facilidade com que sociedades aprendem a conviver com ela.
Toda guerra produz sua linguagem de desumanização. O inimigo deixa de ser visto como pessoa e passa a representar uma ameaça abstrata, uma contaminação moral, uma existência descartável. Em diferentes épocas, receberam nomes distintos: bárbaros, hereges, selvagens, infiéis, terroristas. A palavra muda; o mecanismo permanece.
E então algo se rompe.
Guardas riem diante da dor. Soldados fotografam humilhações. Multidões justificam abusos porque as vítimas pertencem ao lado “errado”. A violência deixa de ser excesso individual e se transforma em cultura emocional da guerra.
Foi assim nos campos de extermínio. Foi assim nas guerras coloniais. Foi assim nas ditaduras latino-americanas. Foi assim em Abu Ghraib, quando soldados americanos sorriram diante de prisioneiros iraquianos degradados. A barbárie raramente chega anunciando-se como barbárie; ela normalmente surge vestida de necessidade, patriotismo ou vingança.
Existe ainda um silêncio adicional quando as vítimas são homens. A violência sexual masculina continua cercada por vergonha, tabu e invisibilidade. Muitos sobreviventes jamais falam. Outros falam décadas depois, já destruídos pelo peso do silêncio. A masculinidade, em muitos contextos culturais, transforma a vítima em alguém condenado ao isolamento.
Nenhuma ideologia deveria possuir licença moral para relativizar esse tipo de crime. Não importa a bandeira, a religião ou o argumento estratégico apresentado. Quando a humilhação sexual se torna aceitável contra determinados corpos, algo profundamente civilizatório começa a morrer.
O perigo maior talvez seja imaginar que atrocidades pertencem apenas ao passado ou aos outros. Os antigos romanos chamavam seus inimigos de bárbaros enquanto praticavam brutalidades imperiais. Séculos depois, nações modernas fariam exatamente o mesmo em nome da ordem, da segurança ou da sobrevivência nacional.
A distância entre civilização e selvageria nunca foi tão grande quanto gostamos de acreditar.
Talvez a verdadeira lição histórica seja justamente esta: a barbárie não desaparece. Ela apenas aprende novas línguas, veste novos uniformes e encontra novas justificativas morais para continuar existindo.
Palmarí H. de Lucena