A Bandeira e a Canção

A Bandeira e a Canção

A memória raramente conserva um concerto inteiro. Prefere um gesto, uma voz, um silêncio. Das noites que passei no Carnegie Hall e no Lincoln Center, não me lembro da ordem das canções nem dos programas que guardei por algum tempo. Lembro-me de uma bandeira cubana sobre um palco e de um teatro inteiro sussurrando uma canção de amor escrita em Havana.

A primeira imagem pertence ao Carnegie Hall.

Era a estreia do Buena Vista Social Club em Nova York. Durante décadas, artistas cubanos e plateias americanas haviam permanecido separados por decisões tomadas muito longe dos teatros. Quando os músicos entraram no palco, traziam mais a serenidade de quem passara uma vida inteira tocando do que a segurança de estrelas internacionais. Muitos já haviam ultrapassado os setenta anos.

Os primeiros aplausos foram calorosos, mas contidos.

Bastaram algumas canções.

Ao meu redor, pessoas começaram a acompanhar trechos das letras quase sem perceber. Um casal algumas fileiras à frente marcavam discretamente o compasso com os pés. Um senhor de cabelos brancos fechou os olhos durante um solo de trompete e permaneceu imóvel até a última nota.

No palco, os músicos trocavam olhares de surpresa. Os sorrisos tornaram-se mais largos. Era como se descobrissem, naquele instante, que aquelas canções já haviam encontrado seu caminho muito antes deles.

No meio do concerto, uma mulher levantou-se da plateia. Caminhou lentamente pelo corredor central. Usava um chapéu de palha cuja aba escondia parte do rosto. Levava nas mãos uma bandeira cubana cuidadosamente dobrada. Ao chegar ao palco, entregou-a a um dos músicos. Não houve discursos. Apenas um abraço breve.

Os aplausos começaram antes mesmo que ela voltasse ao seu lugar. Duraram longamente. Alguns músicos enxugavam discretamente os olhos. A mulher retornou à sua poltrona com a mesma discrição com que havia se levantado.

Na saída, ninguém comentava política. Falava-se das canções, da elegância dos arranjos, da idade surpreendente daqueles músicos. Era curioso perceber tudo aquilo depois de tantos anos em que os dois países haviam insistido em não se ouvir.

A segunda imagem pertence ao Lincoln Center.

Ali assisti, em ocasiões diferentes, aos concertos de Pablo Milanés e Mercedes Sosa. Eram apresentações distintas, mas compartilhavam a mesma impressão inicial de fragilidade. Quando surgiram no palco, o primeiro impulso era de preocupação. Pablo caminhava devagar. Mercedes demorava alguns segundos até encontrar sua posição diante do microfone. Os corpos pareciam carregar o peso dos anos.

Depois vinha a primeira nota.

Pablo começou Yolanda, a canção que escrevera em 1970 para Yolanda Benet, sua esposa, pouco depois do nascimento da primeira filha do casal. Bastaram os primeiros acordes para que o teatro inteiro reconhecesse a música. Em diferentes pontos da plateia ouviam-se vozes acompanhando quase em sussurro:

“Esto no puede ser no más que una canción,
quisiera fuera una declaración de amor…”

Escrita como uma declaração íntima, Yolanda parecia, naquela noite, ter adquirido outra vida. Já não pertencia apenas ao homem que a compusera para a mulher amada; pertencia também às centenas de pessoas que a cantavam com ele. Pablo não precisava enfatizar uma palavra sequer. Cantava com a serenidade de quem compreende que certas canções, depois de algum tempo, encontram morada na memória dos outros.

Mercedes Sosa produzia um silêncio de outra natureza. Permanecia quase imóvel. Entre uma canção e outra, ninguém tossia, ninguém consultava o programa. O teatro inteiro parecia esperar apenas que ela respirasse antes de voltar a cantar.

Ainda hoje me lembro de suas mãos repousando sobre o colo ao final de uma música, enquanto a plateia permanecia de pé.

É curioso o que a memória escolhe conservar. Não a ordem exata das canções, mas um chapéu de palha caminhando lentamente pelo corredor do Carnegie Hall; a bandeira cubana aberta entre os instrumentos do Buena Vista Social Club; os olhares de surpresa dos músicos ao descobrirem que um teatro em Manhattan conhecia suas canções; Pablo Milanés quase sussurrando “Esto no puede ser no más que una canción…”; e o silêncio absoluto que antecedia a voz de Mercedes Sosa.

Quando as luzes do Lincoln Center se acenderam, ninguém parecia ter pressa de sair. Pequenos grupos desciam lentamente as escadas. Alguém, alguns degraus à minha frente, começou a cantarolar os versos de Yolanda. Outra pessoa completou a melodia, quase sem perceber.

Enquanto caminhava para a rua, pensei na bandeira que permanecera sobre o palco do Carnegie Hall tantos anos antes.

Hoje, essas lembranças já não ocupam lugares diferentes na minha memória. Confundem-se numa única imagem: uma bandeira cubana repousando entre instrumentos, uma canção de amor atravessando um teatro em Manhattan e, ao fundo, outra voz que continua cantando muito depois de as cortinas se fecharem.

“Gracias a la vida…”

Talvez seja essa a forma mais discreta da permanência: uma bandeira esquecida sobre um palco vazio, algumas pessoas descendo lentamente uma escada em Nova York e uma canção que continua sendo cantada quando o concerto já terminou.

Palmarí H. de Lucena