A baleia, o gelo e o delírio do poder

A baleia, o gelo e o delírio do poder

Há momentos em que a política se afasta da administração do concreto e passa a operar no plano do símbolo. Não é ruptura institucional, mas deslocamento de eixo: o real cede espaço à narrativa, e a governança passa a girar em torno de imagens totais. O poder, então, deixa de lidar com limites e passa a persegui-los.

Como escreveu Herman Melville em Moby Dick, a caça à baleia branca não é empreendimento econômico nem aventura marítima. Trata-se de uma fixação pessoal travestida de missão. O capitão Ahab não enfrenta um animal, mas uma ideia que passa a concentrar todo o sentido de sua existência. O oceano, vasto e complexo, reduz-se a palco; o navio, a instrumento. A travessia perde importância diante do alvo.

Esse mecanismo simbólico ajuda a compreender certos gestos da política contemporânea. Quando Donald Trump passou a tratar a Groenlândia como objeto de desejo estratégico — ora insinuada como ativo negociável, ora como ambição geopolítica — não se estava apenas diante de uma hipótese diplomática. A ilha passou a funcionar como ideia condensada de poder: território convertido em signo de domínio, complexidade reduzida a enunciado.

A analogia não é moral, mas estrutural. Baleia e Groenlândia pertencem a universos distintos, mas cumprem função semelhante quando erigidas em absolutos. Tornam-se recipientes de projeção política. A natureza deixa de ser sistema; o território deixa de ser história, cultura e população. Tudo se reduz a um ponto fixo no horizonte, capaz de organizar discursos, tensionar alianças e mobilizar plateias.

Há ainda um efeito colateral menos visível, porém decisivo: a compressão do tempo político. A obsessão exige respostas imediatas, gestos ruidosos, anúncios que ocupem o noticiário. O longo prazo — onde se assentam políticas públicas, compromissos climáticos, pactos de segurança e confiança institucional — torna-se incômodo. Governar passa a ser reagir, não planejar. A cena substitui o processo.

Nesse ambiente, instituições tendem a perder densidade. De árbitros do interesse público, convertem-se em acessórios narrativos: ora convocadas para legitimar a caçada, ora desqualificadas quando impõem limites. A diplomacia, construída sobre prudência e continuidade, sofre erosão. Alianças se tornam transacionais; compromissos, condicionais; a previsibilidade, um custo dispensável.

A literatura oferece um aviso claro. Melville sabia que a obsessão cobra preço alto e que o mar, cedo ou tarde, impõe limites. Na política do espetáculo, porém, esses limites nem sempre se manifestam de forma imediata. A fantasia pode sobreviver ao erro; o recuo, ser reencenado como bravata; o impasse, convertido em performance. O risco é a normalização do desvio.

Os custos, ainda assim, existem e se acumulam. Quando o poder se orienta por fixações simbólicas, o debate público empobrece, a cooperação internacional se fragiliza e decisões complexas são reduzidas a slogans. Governa-se menos para administrar o real e mais para sustentar uma imagem — com perdas que não cabem em um ciclo de notícias, mas pesam no tempo.

Governar, no entanto, não é caçar baleias nem possuir ilhas míticas. É reconhecer limites, administrar complexidades e aceitar que o mundo não se curva à vontade individual. Quando o poder troca o mapa pelo arpão, não avança — apenas se expõe. E a história, como o mar de Melville, não reage com indignação nem aplauso. Apenas espera.

Por Palmarí H. de Lucena