Por que escrevo tanto? A pergunta chega de muitas formas. Às vezes vem em tom de curiosidade; outras, com a delicadeza disfarçada de quem observa um homem já avançado na idade ainda insistindo em recolher palavras como quem recolhe conchas depois da maré. “Ainda escreve?” perguntam alguns amigos. “Mas de onde vem tanta coisa?” perguntam leitores ocasionais. Eu mesmo, em noites silenciosas, diante da página aberta como uma janela para dentro de mim, repito a pergunta: por quê?
Nunca encontrei uma resposta definitiva. Talvez porque escrever não seja exatamente uma escolha racional, mas uma necessidade silenciosa, semelhante ao impulso de respirar fundo depois de uma longa caminhada. Os que não leem costumam perguntar. Os que leem apenas seguem viagem comigo, sem exigir explicações. Eles compreendem que certas palavras não existem para convencer; existem para acompanhar.
A proximidade dos oitenta e cinco anos transforma qualquer homem em território de memória. O tempo deixa de ser calendário e passa a ser paisagem. Carrego dentro de mim cidades desaparecidas, rostos que o mundo esqueceu, vozes de pessoas simples que jamais escreveram um livro, mas ajudaram a escrever a vida. Vivi intensamente. Atravessei décadas em que o mundo parecia caminhar para frente e outras em que, assustadoramente, parecia retroceder. Vi tecnologias aproximarem continentes enquanto afastavam pessoas sentadas à mesma mesa. Vi esperanças nascerem nas ruas e morrerem nos gabinetes. Vi ideologias trocarem de linguagem sem necessariamente mudarem de alma.
Talvez eu escreva porque fui testemunha.
Na maior parte da minha vida vivi uma Babel. Não apenas de línguas — embora elas fossem muitas —, mas de costumes, crenças, silêncios e modos de compreender o mundo. Convivi com idiomas ásperos e suaves, palavras que pareciam música e outras que soavam como pedras batendo umas nas outras. Aprendi cedo que o ser humano muda de roupa, de comida, de oração e de idioma, mas continua carregando, no fundo, os mesmos medos, desejos e esperanças.
Talvez por isso eu nunca tenha enxergado o diferente como ameaça. O estranho, para mim, sempre foi convite.
Houve épocas em que desembarquei em cidades onde não compreendia uma única palavra do que era dito ao meu redor. Ainda assim, entendia os gestos. O pão oferecido sobre a mesa. O sorriso discreto de quem acolhe um estrangeiro. O silêncio respeitoso diante da dor. Descobri que a humanidade possui uma linguagem subterrânea, anterior aos dicionários, mais profunda que as fronteiras.
Viajar, então, deixou de ser apenas deslocamento geográfico. Tornou-se exercício espiritual.
Cada cidade me ensinou uma forma diferente de existir. Em algumas aprendi a velocidade; em outras, a contemplação. Houve povos que me ensinaram disciplina e outros que me ensinaram alegria. Conheci pessoas extremamente pobres capazes de repartir o pouco que possuíam com uma dignidade quase sagrada. Conheci também abundâncias vazias, cercadas de solidão e medo.
Com o passar das décadas, fui percebendo que a verdadeira sabedoria talvez esteja menos em julgar o mundo e mais em acolhê-lo.
A convivência com tantas culturas dissolveu em mim a arrogância das certezas absolutas. O que era considerado normal em um lugar tornava-se estranho em outro. O proibido de um povo era a celebração de outro. Aquilo que alguns chamavam civilização, outros enxergavam como perda da alma. Aprendi, então, a escutar antes de concluir. A observar antes de definir.
Isso me tornou mais leve.
Existe uma alegria particular em perceber que o mundo é vasto demais para caber dentro de uma única visão. Cada encontro ampliava meu horizonte interior. Cada idioma ouvido acrescentava uma nova janela ao entendimento da vida. Não precisei dominar todas as línguas para compreender as pessoas; bastou caminhar com humildade entre elas.
Hoje, olhando para trás, sinto gratidão por ter vivido entre diferenças. Elas me impediram de endurecer. Mantiveram minha curiosidade viva. Fizeram de mim menos proprietário da verdade e mais aprendiz do mundo.
Talvez seja por isso que escrevo.
Escrevo para celebrar essa travessia humana extraordinária. Para registrar que a vida, apesar de suas perdas inevitáveis, continua sendo uma aventura luminosa. Escrevo porque ainda me espanto. Ainda me emociono diante da diversidade humana. Ainda acredito na generosidade como uma das formas mais elevadas de inteligência.
A idade me trouxe rugas, mas também me trouxe delicadeza no olhar.
Hoje compreendo que viver não foi acumular países, experiências ou histórias para contar. Viver foi permitir que cada paisagem modificasse um pouco quem eu era. Foi aceitar que somos feitos não apenas daquilo que carregamos conosco, mas também daquilo que os outros depositam em nossa alma ao longo do caminho.
Carrego dentro de mim aeroportos, desertos, portos, ruas antigas, mercados barulhentos, templos silenciosos e incontáveis rostos humanos. Alguns desapareceram no tempo. Outros permanecem vivos em minha memória com uma nitidez quase dolorosa. Todos, sem exceção, ajudaram a construir o homem que hoje escreve estas linhas.
E talvez a escrita seja apenas isso: uma última forma de hospitalidade.
Uma maneira de abrir a porta da memória para desconhecidos. De oferecer abrigo temporário a quem também atravessa o mundo carregando perguntas sem resposta. Aos oitenta e cinco anos, já não escrevo para provar nada. Escrevo para compartilhar o assombro de ter vivido. Para agradecer pelas estradas percorridas, pelas pessoas encontradas e pelas diferenças que me ensinaram a ampliar o coração.
No fim, depois de tantas fronteiras atravessadas, tantas línguas ouvidas e tantos mundos habitados, cheguei a uma conclusão simples: a verdadeira pátria de um homem talvez não seja um país, mas a capacidade de permanecer humano diante da imensidão e da diversidade da vida.
Por Palmarí H. de Lucena