A percepção da liderança chinesa diante da presidência atual de Donald Trump é marcada por uma serenidade estratégica pouco comum em tempos de instabilidade internacional. Para muitos em Pequim, as decisões adotadas por Washington — que incluem o enfraquecimento de instituições tradicionais de influência, o questionamento de alianças históricas e a imposição de barreiras comerciais tanto a aliados quanto a rivais — são vistas como gestos de autossabotagem. Quando o adversário desmonta os próprios pilares, não há urgência em enfrentá-lo. Melhor deixá-lo seguir.
A reconfiguração do papel da U.S. Agency for Global Media, anteriormente responsável por veículos como a Voice of America, é ilustrativa. Ao desestruturar esse canal de comunicação, os Estados Unidos abriram espaço para a expansão de narrativas estatais chinesas em regiões-chave como o Sudeste Asiático e a África Ocidental. Onde antes havia mensagens voltadas à pluralidade, surgem agora discursos calcados em estabilidade e desenvolvimento, com menor ênfase nas liberdades individuais.
Em fóruns estratégicos e intelectuais, paralelos históricos começaram a ser traçados. Alguns analistas chineses sugerem que Trump, ao tentar reformar a ordem vigente, pode acabar produzindo efeitos semelhantes aos de Mikhail Gorbachev na antiga União Soviética — não por intenção, mas por consequência. Outros enxergam ressonâncias com a Revolução Cultural chinesa, ao compararem a ascensão de figuras não institucionais ao centro do poder com momentos históricos de reestruturação impetuosa.
Pequim, por sua vez, adota uma postura comedida. Intensifica laços comerciais com países fora da órbita ocidental, investe em diplomacia que sugere continuidade da doutrina “America First” como um novo normal da política externa americana, e promove iniciativas que refletem seus próprios princípios de estabilidade e prosperidade econômica, embora afastadas de ideais liberais ocidentais.
Essa leitura se torna mais sólida à medida que Washington reduz o financiamento à pesquisa científica, restringe a presença de talentos estrangeiros e diminui sua atuação em organismos multilaterais. A visão em ascensão entre estudiosos chineses é a de um desmonte sistemático — não de capacidades militares, mas de estruturas de influência simbólica e institucional.
No campo da energia, essa dinâmica também se evidencia. Ao abandonar políticas de incentivo às fontes renováveis e reforçar a dependência de combustíveis fósseis, o governo americano abre espaço para a liderança chinesa na transição energética global. Com planejamento de longo prazo, inovação industrial e capacidade de execução, a China posiciona-se como protagonista da economia verde, enquanto os Estados Unidos recuam.
Não se trata de anunciar a substituição de uma hegemonia por outra. Diversos países asiáticos e europeus demonstram cautela diante de qualquer centralidade global, seja ela americana ou chinesa. Mas a retração voluntária da potência que liderou a ordem pós-Segunda Guerra cria um vácuo de influência e abre margem para a reorganização das esferas de poder.
O presidente Trump não apenas altera a imagem dos Estados Unidos no cenário mundial — ele a contrai. Ao enfraquecer vínculos diplomáticos, deslegitimar canais de cooperação e questionar compromissos históricos, torna seu país menos previsível e menos atrativo como referência de estabilidade. Nesse vácuo, a China não impõe sua presença; apenas avança. Discreta, calculada e constante. Na coreografia sutil da política internacional, há momentos em que liderar significa apenas não tropeçar quando o outro já cambaleia.