A arte de não ter pressa

A arte de não ter pressa

Há algum tempo venho desconfiando dos meus próprios olhos. Foi o que pensei naquela manhã, parado diante de um semáforo, enquanto aguardava o sinal abrir. Só então reparei na árvore junto à calçada, imóvel no meio do movimento. Um homem mexia no telefone, uma mulher acompanhava impaciente o trânsito e alguém buzinava sem necessidade. O sinal continuava vermelho, e aqueles poucos segundos pareciam longos demais para todos nós. A árvore estava ali, quase escondida entre os carros, como se fizesse parte daquela paisagem havia muito mais tempo do que qualquer um de nós.

Quando o sinal abriu, as pessoas atravessaram. Segui com elas, mas fiquei pensando naquela cena. Não estávamos atrasados; apenas parecíamos incapazes de permanecer sem fazer alguma coisa. Basta olhar ao redor. Enquanto estamos no elevador, consultamos o telefone; quando encontramos alguém, respondemos mensagens; numa fila, procuramos alguma distração. Até os pequenos intervalos do dia parecem precisar de preenchimento.

Tenho percebido isso em mim. Às vezes respondo uma mensagem enquanto caminho, olho o telefone entre uma tarefa e outra e começo uma atividade já pensando na seguinte. Até quando tenho algum tempo livre, procuro algo para ocupá-lo. É estranho admitir, mas nem sempre sei o que fazer quando não há nada urgente para fazer. Talvez eu tenha me acostumado tanto ao movimento que o silêncio passou a parecer ausência de alguma coisa.

Mas há coisas que não obedecem a esse ritmo. Uma criança demora anos para crescer, uma amizade precisa de convivência, uma ferida não cicatriza porque temos compromissos e uma ideia precisa de tempo para amadurecer. Algumas experiências simplesmente não aceitam atalhos. Há conversas que só ficam boas depois de algum silêncio, livros que exigem mais de uma leitura e decisões que perdem a qualidade quando são tomadas de qualquer maneira. A vida conserva uma lentidão que nenhuma tecnologia conseguiu eliminar.

Isso também aparece na maneira como lidamos com o conhecimento. Estuda-se pensando no emprego, na promoção, no salário. É compreensível, mas insuficiente. Há coisas que aprendemos simplesmente porque ampliam nosso olhar. Uma leitura pode não trazer nenhuma vantagem imediata, mas pode mudar a maneira como enxergamos uma pessoa ou uma situação. A educação deveria formar não apenas profissionais, mas pessoas capazes de pensar, fazer escolhas e reconhecer que nem toda pergunta precisa de uma resposta pronta.

Talvez por isso confundamos informação com conhecimento. Nunca foi tão fácil saber o que acontece no mundo, mas continua difícil escolher o que merece nossa atenção. Recebemos notícias, opiniões e comentários a todo instante. Muitas vezes, antes de compreender um acontecimento, já estamos diante de uma interpretação sobre ele. Entre tantas vozes, quase não sobra espaço para formar as nossas.

Às vezes me pego repetindo uma opinião que nem sei quando comecei a ter. Talvez tenha chegado até mim de tanto ouvi-la. O difícil é parar e perguntar o que realmente penso. Não quero viver contra os outros, mas também não quero apenas acompanhar o movimento. Há uma diferença entre participar do mundo e deixar que o mundo pense por nós.

Talvez a educação também devesse nos ensinar essa diferença. Aprender não significa apenas acumular informações ou adquirir uma profissão. Significa desenvolver alguma independência diante das coisas. Saber escutar sem aceitar tudo, discordar sem transformar a diferença em ofensa e mudar de ideia quando os fatos exigirem. Não parece muito, mas talvez seja uma das formas mais difíceis de amadurecimento.

Depois de atravessar a rua, continuei pensando na árvore. Eu passava por ali havia anos e nunca havia reparado nela. Talvez o conhecido se torne invisível quando deixamos de prestar atenção. Passamos pelos mesmos lugares, pelas mesmas pessoas e até pelos mesmos dias sem realmente percebê-los. Há manhãs que terminam sem que consigamos lembrar de quase nada delas, como se tivéssemos atravessado o dia sem estar inteiramente presentes.

Talvez seja possível recuperar um pouco dessa atenção sem abandonar as facilidades do nosso tempo. Podemos usar a tecnologia sem consultá-la a cada minuto, trabalhar sem transformar o trabalho na única medida da vida e estudar também por curiosidade, não apenas por necessidade. Podemos procurar o futuro sem tratar o presente como simples passagem. Não se trata de rejeitar a velocidade, mas de não permitir que ela escolha o ritmo de tudo.

Quando o semáforo fechou novamente, guardei o telefone no bolso. Os carros passaram, as pessoas seguiram pela rua e a cidade continuou seu ruído habitual. Fiquei alguns segundos olhando a árvore na calçada. Dessa vez, não tinha pressa.

O sinal abriu. Atravessei a rua e segui meu caminho. A árvore ficou onde estava, como sempre. Talvez amanhã eu passe por ela novamente e me lembre de olhar.

Palmarí H. de Lucena