Durante sua recente visita à China, Donald Trump mencionou a contribuição dos trabalhadores chineses para a construção das ferrovias dos Estados Unidos, destacando sua importância para o desenvolvimento econômico americano. Embora o comentário tenha sido apresentado como um reconhecimento histórico, ele reacendeu debates sobre a ausência de referências ao sofrimento, à exploração e ao racismo enfrentados pelos imigrantes asiáticos ao longo da história americana.
Os trabalhadores chineses — frequentemente chamados de coolies, termo utilizado de maneira pejorativa no século XIX — participaram da construção da Transcontinental Railroad construction em condições extremamente precárias. Eles realizavam os trabalhos mais perigosos, recebiam salários inferiores aos trabalhadores brancos e viviam submetidos a jornadas exaustivas, violência racial e segregação social. Muitos historiadores descrevem esse sistema como uma forma de servidão contratada ou semiescravidão.
Entretanto, a discriminação contra asiáticos nos Estados Unidos não começou nem terminou nas ferrovias. Ela foi profundamente influenciada pela ideologia do chamado “Perigo Amarelo” (Yellow Peril), uma narrativa racista surgida no final do século XIX que retratava povos asiáticos como uma ameaça econômica, cultural e até biológica ao Ocidente. Essa visão alimentou o medo de que trabalhadores chineses e japoneses “roubariam empregos”, reduziriam salários e comprometeriam a identidade nacional americana.
O “Perigo Amarelo” serviu como justificativa para políticas de exclusão racial e imigração restritiva. O exemplo mais emblemático foi a Chinese Exclusion Act, primeira lei dos Estados Unidos a proibir explicitamente a imigração de um grupo étnico específico. Posteriormente, japoneses, coreanos e outros asiáticos também foram alvo de discriminação institucional, restrições migratórias e violência social.
Durante a Segunda Guerra Mundial, o preconceito antiasiático atingiu outro nível com o internamento forçado de milhares de nipo-americanos após o ataque a Pearl Harbor, episódio representado pela Internment of Japanese Americans. Mesmo cidadãos americanos foram tratados como suspeitos apenas por sua origem étnica, revelando como o racismo contra asiáticos estava profundamente enraizado na sociedade americana.
Nas décadas seguintes, apesar de avanços nos direitos civis, estereótipos persistiram. Asiáticos passaram a ser frequentemente enquadrados no mito da “minoria modelo”, imagem que aparentemente os elogia por disciplina e sucesso econômico, mas que também invisibiliza desigualdades e minimiza outras formas de racismo estrutural.
Nos últimos anos, especialmente durante a pandemia de COVID-19, discursos políticos e expressões associando o vírus à China contribuíram para o aumento de ataques e hostilidade contra pessoas de origem asiática em diversos países ocidentais, incluindo os Estados Unidos.
Ao mesmo tempo, o endurecimento das políticas migratórias americanas e o aumento das operações do U.S. Immigration and Customs Enforcement (ICE) também passaram a atingir comunidades asiáticas de maneira crescente. Dados recentes apontam um aumento significativo nas detenções e prisões de imigrantes asiáticos, incluindo chineses, durante operações migratórias nos Estados Unidos. Relatórios de organizações comunitárias indicam que milhares de asiáticos foram detidos mesmo sem antecedentes criminais graves, refletindo uma ampliação das políticas de vigilância e deportação.
Casos recentes envolvendo cidadãos chineses também alimentaram tensões políticas e discursos de suspeita generalizada. Investigações federais relacionadas a espionagem, influência estrangeira e supostas operações clandestinas chinesas em território americano reforçaram um clima de desconfiança sobre comunidades chinesas e sino-americanas.
Críticos alertam que, embora questões de segurança nacional sejam legítimas, existe o risco de que essas ações reforcem antigos estereótipos do “Perigo Amarelo”, associando pessoas de origem chinesa à ameaça estrangeira ou à deslealdade nacional. Organizações de direitos civis também denunciam abusos em centros de detenção migratória e o crescimento de práticas consideradas excessivas por parte do ICE, especialmente durante operações em larga escala realizadas nos últimos anos.
Dessa forma, reconhecer apenas a contribuição econômica dos trabalhadores chineses, sem mencionar a longa história de discriminação, exploração e violência sofrida pelos asiáticos, produz uma narrativa incompleta. A história da participação asiática nos Estados Unidos não é apenas uma história de trabalho e progresso, mas também de exclusão, resistência e luta por reconhecimento, dignidade e igualdade.
Por Palmarí H. de Lucena