A África que permanece em mim

A África que permanece em mim

A África entrou na minha vida antes de se transformar numa ideia. Antes dos mapas, das estatísticas e das imagens destinadas a quem observa à distância, houve estradas, cidades, conversas, esperas e encontros. Houve também silêncios que, na altura, talvez eu não tenha sabido interpretar. Com o passar dos anos, muitas certezas perderam a firmeza. Estar presente não significava necessariamente compreender, e viajar não era o mesmo que pertencer.

Nunca conheci a África. Conheci lugares, pessoas e circunstâncias. Passei por determinados países em épocas particulares, atravessei momentos históricos e encontrei pessoas cujas vidas continuavam muito para além do breve cruzamento com a minha. O continente era demasiado vasto, diverso e historicamente complexo para caber no campo do meu olhar. O que ficou comigo são fragmentos: experiências vividas, conversas, paisagens, acontecimentos e pessoas.

Atravessei períodos de seca, fome, guerra e instabilidade política. Vivi em contextos marcados por golpes de Estado e conheci situações em que a política deixava de ser uma discussão distante para entrar abruptamente na vida quotidiana. Estive próximo dos conflitos entre Kokombas e Nanumbas, no Gana. Nas regiões de fronteira entre o Sudão e o Quénia, deparei-me com circunstâncias de insegurança em que sobrevivência, disputas locais, fragilidade institucional e violência se cruzavam de maneiras difíceis de reduzir a uma única explicação.

Estive perto de acontecimentos que me marcaram profundamente e, ao mesmo tempo, vivi-os de forma diferente daqueles para quem não existia a possibilidade simples de partir. Eu podia seguir viagem. Outros permaneciam. Para mim, determinados acontecimentos tornaram-se parte da memória; para quem ali vivia, eram parte de uma história que continuaria depois da minha partida. Essa diferença nunca deixou de estar presente.

Havia histórias de raptos, roubos de animais e perdas que nem sempre encontravam espaço nos relatos oficiais. Havia também as marcas deixadas pelas guerras. Algumas estavam visíveis nas paisagens e nos edifícios; outras apareciam nas ausências, nas relações familiares, nas conversas interrompidas e nos silêncios. Uma guerra pode terminar formalmente antes de terminar na vida de quem a atravessou.

Conheci a Rodésia num período de profundas transformações e acompanhei alguns dos processos que conduziriam à independência do Zimbabwe. Mais tarde, testemunhei de perto a luta contra o apartheid na África do Sul. O apartheid não era uma abstração. Estava nas leis, nas instituições, no espaço, no trabalho e nas possibilidades distribuídas de forma desigual entre as pessoas.

Também a resistência era concreta. Não pertencia aos livros de história enquanto acontecia. Estava nas pessoas, nas organizações, nas famílias e nos movimentos que recusavam aceitar a injustiça como condição natural. Assisti a uma luta que não era minha e que, ainda assim, se tornou parte da minha história. Podia admirar a coragem de quem enfrentava aquele sistema sem suportar, da mesma maneira, todas as consequências dessa luta.

Depois de tudo isso, poderia ter ficado apenas com a memória da violência e da catástrofe. Mas o que regressa com maior frequência são as pessoas vivendo as suas vidas. Trabalhavam, educavam filhos, discutiam política, cuidavam das famílias, criavam negócios, faziam planos, riam e zangavam-se. A vida quotidiana tinha uma densidade própria. Muitas vezes, aquilo que me parecia extraordinário era simplesmente a vida de alguém.

Essa diferença alterou a maneira como recordo o que vivi. Era fácil chegar impressionado pelas crises e esquecer que ninguém vive permanentemente dentro da crise. Era igualmente fácil, diante da beleza de uma paisagem ou da intensidade de um encontro, transformar aquilo que eu sentia numa qualidade do lugar. Uma paisagem não existe para confirmar a emoção de quem a contempla, e uma pessoa não existe para completar a narrativa de quem passa.

Foi nesse espaço entre proximidade e distância que comecei a compreender a paciência. Não como uma característica de um povo ou de um continente, mas como algo que encontrei em pessoas concretas, em circunstâncias concretas. Havia espera, mas também ação; prudência, mas também coragem; memória, mas também vontade de mudança. Mas aquilo que parecia paciência aos meus olhos podia, para outra pessoa, ser cansaço, necessidade, estratégia ou simplesmente ausência de alternativa.

Quando penso em V. S. Naipaul e em Karen Blixen, encontro outras formas de olhar para partes do continente. Naipaul dirige frequentemente a atenção para fraturas, crises e consequências históricas difíceis. O seu olhar pode ser severo e crítico. Karen Blixen, em Out of Africa, aproxima-se do Quénia através da memória, da paisagem e do fascínio pessoal, numa escrita cuja beleza não pode ser separada do contexto colonial em que viveu.

Também o meu olhar ocupa uma posição particular. Há coisas que compreendi e outras que apenas julguei compreender. Passei por determinados lugares sem conhecer todas as suas histórias. Encontrei pessoas cujas vidas só conheci durante um breve intervalo. A passagem dos anos também alterou algumas memórias. O passado não regressa intacto; regressa através da pessoa em que nos tornámos.

Desconfio das imagens demasiado completas. Desconfio da África reduzida à guerra, à fome e à pobreza, como se as crises fossem a sua identidade fundamental. Mas também desconfio da África transformada numa paisagem intemporal, numa reserva de autenticidade ou numa fonte de lições espirituais para quem vem de fora. Uma imagem pode diminuir pelo que retira; outra, pelo que inventa.

Os lugares que conheci eram feitos de conflitos e de rotina, de dificuldades e ambições, de perdas e celebrações. Havia desigualdades e injustiças, mas também humor, trabalho, afeto, competição, criatividade e discussão política. Quanto mais tempo passava, menos útil se tornava a procura de uma única explicação.

Eu próprio carregava as minhas ambiguidades. Queria aproximar-me e sabia que havia uma distância que não desapareceria apenas pela boa vontade. Queria compreender, mas trazia comigo a minha própria história, educação e hábitos de interpretação. Queria evitar um olhar exterior simplificador e, no entanto, continuava a ser alguém que, em muitos daqueles lugares, estava de fora.

Conheci sofrimento sem concluir que ele definisse uma sociedade. Conheci violência sem acreditar que ela pudesse explicar uma cultura. Conheci medo, mas também coragem, generosidade, inteligência e humor. Nem toda a dor ensina. Nem toda sobrevivência é heroica. Nem todo recomeço é uma vitória. Às vezes, as pessoas simplesmente continuam porque continuar é o que ainda lhes resta fazer.

Durante muito tempo procurei, no que testemunhava, sinais de esperança. Mais tarde, percebi que também eu precisava de encontrar esses sinais. A esperança pode existir, mas não deve ser exigida às pessoas para tornar o sofrimento mais suportável aos olhos de quem o observa.

Ainda assim, encontrei momentos em que a vida voltava a organizar-se depois das grandes dificuldades. Depois da seca, a terra podia voltar a receber chuva. Depois da guerra, começava o trabalho imperfeito da reconstrução. Depois de sistemas de injustiça, abriam-se possibilidades que antes pareciam impossíveis. Nada disso apagava as perdas. Nada garantia um futuro melhor. Mas mostrava que o presente não era necessariamente definitivo.

A África que permanece em mim não é uma abstração homogénea. São cidades e estradas, conversas e silêncios, momentos de medo e momentos de alegria. São pessoas que conheci apenas de passagem e outras cuja presença continuou comigo durante décadas. São acontecimentos que compreendi parcialmente e perguntas que permaneceram abertas.

Quanto mais penso nesse passado, menos me interessa chegar a uma conclusão definitiva. O que vivi deixou-me memórias, dúvidas e uma consciência mais clara dos limites de qualquer olhar individual. Passei por lugares que se tornaram parte da minha própria história, embora soubesse que nunca seriam meus.

O que permanece é uma memória pessoal e inevitavelmente incompleta. Uma memória de proximidades e distâncias, de fascínio e desconforto, de compreensão e ignorância. As pessoas que conheci não aparecem nela como símbolos de uma África imaginada, mas como pessoas inteiras, com vidas que excedem tudo aquilo que eu poderia escrever sobre elas.

É essa memória, imperfeita e ainda inquieta, que permanece em mim.

Palmarí H. de Lucena