O Espantalho Invisível: A Conspiração que Rende Votos

O Espantalho Invisível: A Conspiração que Rende Votos

Se há um produto de exportação política mais resistente que a Coca-Cola, é a teoria conspiratória. E o deep state — esse “estado profundo” tão celebrado pela direita trumpista — chegou ao Brasil com a mesma eficiência com que chegam as fake news no WhatsApp da sua tia. Por aqui, recebeu nomes tropicais: “sistema”, “forças ocultas”, “velha política”. Mudou a embalagem, mas manteve o recheio: um inimigo invisível, perfeito para culpar por tudo, exceto pelos próprios erros.

Nos Estados Unidos, Donald Trump pegou o mito e tratou-o como seu seguro de vida político. Cada investigação, cada decisão judicial, cada manchete incômoda virava “prova” de que um complô estava em curso para destruí-lo. A lógica é tão circular que poderia ser usada como logo da própria campanha: se o acusam, é porque ele é perigoso para os conspiradores; e se é perigoso para eles, é porque é “o escolhido” do povo. É uma religião política com um Deus de terno e gravata e um diabo sem rosto.

No Brasil, a versão bolsonarista é mais barulhenta e menos sofisticada — como se a teoria tivesse trocado um terno caro por uma camiseta da seleção. O “sistema” é uma rede de pesca imaginária que captura inimigos conforme a necessidade do dia: um ministro do STF, um deputado, um jornalista, um ex-aliado que ousou pensar por conta própria. Não há coerência, só conveniência.

O objetivo, em ambos os casos, é triplo e nada secreto. Primeiro: blindar o chefe de qualquer responsabilidade. Segundo: manter a base em estado de guerra permanente, porque eleitor com medo vota sem pensar. Terceiro — e mais tóxico —: corroer a confiança nas instituições, transformando cada freio democrático em sinal de golpe. Afinal, se tudo é parte da conspiração, não há limites para o que se pode “corrigir” em nome da “vontade popular”.

O deep state, ou “sistema”, não precisa existir para funcionar. Ele vive de insinuações, de memes com letras garrafais, de recortes de manchetes costurados como se fossem prova judicial. É uma mentira com formato de revelação, vendida como verdade inconveniente. E como toda boa mentira política, ela tem prazo de validade elástico: dura enquanto houver quem precise dela para se manter no poder.

Mas a ironia é inevitável: ao transformar a política em uma luta contra um inimigo invisível, o líder prende-se na própria armadilha. Sem pontes para negociar, sobra apenas a repetição da mesma ladainha para a mesma plateia — até que o público, cansado, vá embora ou encontre outro profeta do apocalipse institucional.

No fim, o deep state não é conspiração: é marketing. É o espantalho que desvia a atenção do campo vazio que o líder deveria estar cultivando. É a máscara que se quebra ao primeiro sopro de realidade. E, quando isso acontece, sobra o que sempre houve: um governante que, sem o fantasma, precisa encarar seus próprios fracassos — e, para alguns, nada assusta mais do que isso.

Por Palmarí H. de Lucena